O velho e o mar - Ernest Hemingway

out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

A fama de O velho e o mar é tão espetacular que quando o peguei para ler, senti um certo medo. Por ser um livro fino, meu medo era de terminar logo, num só dia. Queria prolongar meu prazer com a leitura, mesmo sabendo que todo o esforço para economizá-lo seria inútil, pois quando a brisa de palavras de Hemingway inflasse minha vela, fatalmente navegaria a velocidade máxima, sem paradas ou descanso, com destino ao fim.

Mas do início até boa parte do livro não tive dificuldades em prolongar a leitura. Minha expectativa era enorme e sentia falta de algo. Meu barco ainda não deslizava pelas palavras e a cada página lida, havia menos uma página para que pudesse sentir a brisa de O velho e o mar. A expectativa crescia e não encontrando respostas, passei a achar que a ansiedade impedia meu mergulho nas palavras de Hemingway.

Era aquela história que de tanto desejar uma coisa e querer transformar aquilo num momento mágico e inesquecível, você acaba não percebendo que o seu desejo aconteceu, por estar mais preocupado com suas próprias exigências.

Mas um clássico é um clássico. Não importa se você não está no clima, desconcentrado ou pensando em outra coisa. Um clássico sempre encontrará um caminho para lhe atingir e mudar sua vida.

Quando reparei, estava dentro da história, sendo carregado pela brisa de palavras, torcendo, vibrando e chorando com Santiago.

Ao ler O velho e o mar o que fica não são as palavras, não é a técnica nem as descrições. O que fica é a história e os sentimentos de Santiago, que no passado fora chamado de “El Campeón” e agora, velho, amargando 85 dias sem nada pescar, lança-se ao mar sozinho, com a obrigação de não decepcionar a única pessoa que lhe importa no mundo, lutando pela sobrevivência com os limites e a solidão, o orgulho e a derrota. O que ficam são as lembranças marcadas com sentimentos, entranhadas na alma que sempre reaparecem nos nossos sonhos.

O velho e o mar é uma montanha-russa, vai construindo o clímax lentamente, o que aumenta ainda mais a expectativa. Chegando no topo, após uma verdadeira luta, a queda. Hemingway conseguiu fazer com que eu ficasse me remexendo, inconformado com os rumos da história. Sem dúvida o melhor anti-clímax que já passou por minhas mãos.

Thiago Corrêa
lido em Dez. 2003
escrito em 11.12.2003

: : TRECHO : :
“Então o peixe voltou à vida já com a morte nele e ergueu-se no ar mostrando o seu enorme comprimento, a sua enorme largura, todo o seu poder e toda a sua beleza. Parecia flutuar no ar, por cima do velho. Em seguida caiu n’água com um estrondo que lançou uma torrente de água sobre o barco e o pescador.” (p. 81)

: : FICHA TÉCNICA : :
O velho e o mar
Ernest Hemingway
Trad.Fernando de Castro Ferro
Bertrand Brasil, 54a. edição, 2003
110 páginas

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3 comentários
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  1. leia Paris é uma festa.

  2. O livro também me im pressionou muito. Como é uma história de superação não entendo como seu autor cometeu o ato covarde do suicídio. Talvez porque a depressão saiu vencedora nessa luta entre a vida e a morte e coube a Hemingway , ironicamente, o papel do peixe aniquilado mesmo sendo grande, forte e saber lutar.

  3. É lindo esse livro, me fez ver que as dificuldades podem ser superadas mesmo que voce esteja no meio do mar e sózinho, é claro que Santiago tinha a motivação: não decepcionar o “rapaz”.

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