A Casa dos Budas Ditosos - João Ubaldo Ribeiro
out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasAtravés dos relatos gravados em fitas por uma mulher misteriosa que foram supostamente enviadas ao autor, João Ubaldo Ribeiro, tido apenas como o transcritor das fitas, mata dois coelhos com uma cajadada só. Primeiro, o mistério que envolve a suposta autora/narradora, permite a João Ubaldo, a liberdade para criticar e meter-se em assuntos ainda hoje considerados escabrosos. E segundo, adota a oralidade, admitindo os possíveis erros gramaticais, deixando a narrativa fluir como se estivéssemos ouvindo (e não lendo) as histórias da mulher.
Porém, ao optar por essa coerência da oralidade, João Ubaldo perde o poder das descrições, que é necessário para a elaboração de uma atmosfera que envolva o sexo pelos sentidos. A oralidade, neste caso, prejudica, criando uma distância enorme entre o leitor e os fatos que são narrados, pois entre eles há um intermediário, existe a narradora misteriosa, implicando na sutil, mas enorme diferença entre o fazer e o dizer que foi feito. A narradora não apenas narra o fato, ela se critica com a autoridade de quem já sabe o final da história, conta os fatos não de dentro deles, mas de fora, vendo-os com os confortáveis olhos alcançados pela experiência e amadurecimento.
Isto faz com que A casa dos Budas ditosos não seja um livro excitante, são raríssimos os momentos em que isto acontece, mas um livro que analisa o sexo e seus tabus desde a Segunda Guerra Mundial numa Bahia conservadora até a comodidade dos anúncios em jornal para se obter um parceiro(a). Existe uma teorização sobre o sexo, reunindo discursos filosóficos e religiosos, discursos críticos sobre questões como o feminismo, a falsa moral, o incesto, o homossexualismo, o celibato, a monogamia e fidelidade.
A narradora é uma intelectual do sexo e por isso, mantém-se além dos dogmas que envolvem o sexo, sempre buscando o prazer. Para ela não há regras quando o assunto é sexo. Apaixona-se e fode com o irmão, trepa com garotos de programa depois de velha, lamenta-se por não ter dado para o pai, tira um sarro com o tio, seduz o professor para que este lhe tire a virgindade, participa de surubas com padres e freiras americanas, cheira cocaína, divide o marido com homens e mulheres, se excita em vê-lo sendo penetrado.
O problema é que toda vez em que ela começa a descrever suas aventuras sexuais, ela se interrompe, perdendo-se nos assuntos e adentrando em teorizações e divagações filosóficas.
Thiago Corrêa
lido em Dez./Jan. de 2004
escrito em 14.04.2004
: : TRECHO : :
“e eu doida que ele gozasse na minha boca e ele acreditando naquela frescura preliminar do “essa coisa que espirra” e tirando o pau fora de minha boca para gozar na minha mão, até que não agüentei e grunhi “goze na minha boca!” e reenfiei o pau dele tanto quanto pude na boca e só parei quando senti ele gozando quase em minha garganta;” (p. 73)
: : FICHA TÉCNICA : :
A Casa dos Budas Ditosos
João Ubaldo Ribeiro
Coleção Plenos Pecados - Luxúria
Objetiva, 1a. edição
163 páginas
[...] anos, remonta a sua vida enquanto agoniza na cama de um hospital público. A exemplo de livros como A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, e A décima segunda noite, de Luis Fernando Verissimo, a história [...]
[...] Reza a lenda que A Casa dos Budas Ditosos, participação mais que representativa da Luxúria, escrita por João Ubaldo Ribeiro para a coleção Plenos Pecados da Editora Objetiva, é a transcrição dos originais relatos de CLB, uma senhora de 68 anos, nascida na Bahia, mas moradora do RJ, que viveu o sexo pelo prazer sem nenhum tabu ou culpa, que lhes foram entregues anonimamente em fitas. Verdade ou marketing? Quem vai saber… O que sabemos é que o livro não chega a ser sensual apesar do discurso erótico, mas através de relatos descritivos das experiências sexuais da personagem (que tem entre eles, menor seduzindo um adulto, incesto, sexo com garotos de programa, o casamento com um bissexual, surubas com religiosos…) nos leva à reflexão sobre temas tabus relacionados à sexualidade. Indico a resenha de Thiago Corrêa. [...]