Angu de Sangue - Marcelino Freire

out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Descobri Angu de Sangue através da sua adaptação teatral. Na ocasião, fiquei chocado, envolvido, deslumbrado com a selvageria da loucura do submundo, fruto do caos urbano em que vivemos.

Reunindo 17 contos, com um projeto gráfico bem trabalhado, papel couchê, fotos, cores, desenhos, arte visual e uma literatura com tendência experimental e temática provocativa, Angu de Sangue não deixa de ser um livro interessante.

Talvez eu é que não tenha escolhido uma boa hora para lê-lo: ainda sob influência da peça, com frases e imagens ecoando na memória. Assim, sem as surpresas do ineditismo de algumas histórias e sem os recursos dramático-visuais da peça, acabei me decepcionando com o livro.

Achei as palavras presas às páginas, sem conseguir evocar a dor, a emoção, a raiva. Foi como assistir alguém inexpressivo lendo as histórias. As palavras ficaram vazias, incapazes da revolta, da sujeira que saía da boca dos atores. No máximo uma ira de adolescente para chamar a atenção dos pais.

O grande problema de Angu de Sangue foi tratar as palavras com um caráter mais estético do que narrativo. Sua oralidade é estilística, não busca a fluência, a naturalidade da fala. Marcelino Freire faz uma espécie de prosa poética fora de sintonia com o tema de suas histórias. Ele faz questão de ter rimas, mesmo que sejam sofríveis. Utiliza símbolos, espaços, experimenta novas maneiras de se fazer literatura, mas deixa seus recursos expostos como num filme trash em que os efeitos especiais ficam à mostra.

E o engraçado é que mesmo com este ímpeto de sair da mesmice, o autor acaba caindo na repetição. Usando a mesma fórmula para histórias diferentes (Belinha, Moça de Família, Volte outro dia e Sentimentos), potencializa o final como o ponto de equilíbrio e sustentação da história, o que nem sempre acontece.

Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2004
escrito em 14.06.2004

: : TRECHO : :
“É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta – roupa nova, véu, grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem parar muito homem morto, muito criminoso. A gente já está acostumado. Quase toda semana o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado.” (p. 25, conto: Muribeca)

: : FICHA TÉCNICA : :
Angu de Sangue
Marcelino Freire
Ateliê Editorial, 1a. edição
134 páginas

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