Cem quilos de ouro - Fernando Morais

out 29th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

O jornalista Fernando Morais é dono de um currículo invejável. Trabalhou em publicações como a Folha de S.Paulo, IstoÉ, Playboy e Jornal da Tarde; foi secretário de cultura de São Paulo; e é autor de livros como A ilha, Olga e Chatô – O Rei do Brasil. O segredo dele? Ser mais que um jornalista: Fernando Morais tem mais do que habilidade para descobrir segredos e construir frases, ele tem sensibilidade para isso.

O livro Cem Quilos de Ouro reúne doze das mais importantes reportagens realizadas por Fernando Morais ao longo de sua carreira. Documentam fatos que acabaram repercutindo no mundo que conhecemos hoje. Reconstroem um mundo cheio de conflitos, um Brasil ainda com seqüestradores receosos, sob o regime da ditadura militar, engatinhando para a democracia.

A primeira reportagem, que dá nome ao livro e a única fora de ordem cronológica, retrata um Brasil com seqüestradores ainda receosos, com peso na consciência e sentimento de culpa. Na seqüência vem as aventuras do jornalista percorrendo a Transamazônica, tentando descobrir qual a utilidade da “obra do século”.

As narrativas cumprem seu papel de reportagem, são objetivas e repletas de informações. E vão além, possuem o dedo do autor, ele está presente em suas reportagens, não só dando opinião, aplicando ironias e elogios, mas como personagem, uma peça da engrenagem.

É assim que ele revela o sistema socialista de Cuba e segredos de um espião cubano infiltrado na CIA; cobre os conflitos dos sandinistas na Nicarágua e dos saarauís em sua pequena República; entrevista Frei Betto, na época tido como “o frade do terror”; relata os dias de glória e desgraça do ex-presidente Fernando Collor.

O livro tropeça com a reportagem Entre Kane e os malditos da beat generation, sobre o castelo do magnata William Randolph Hearst, que inspirou Orson Welles a fazer Cidadão Kane. Escrita para um suplemento de turismo, até se entende informações como o preço de uma refeição, bons restaurantes e que estradas pegar. O que não entendo é o porquê dessa reportagem estar neste livro, entre as melhores. Se não houvesse nada melhor, que deixassem onze reportagens, apenas.

Cem Quilos de Ouro retoma o fôlego numa conversa informal sobre o nosso Cidadão Kane, Assis Chateaubriand, com três importantes escritores nacionais – Otto Lara Resende, Rubem Braga e Moacir Werneck de Castro. Para fechar, Fernando Morais consegue falar com o juiz Baltasar Garzón, que mandou prender o ex-ditador chileno Pinochet.

Apesar da variedade dos assuntos, o livro consegue manter uma unidade graças a pequenas introduções que vão costurando as reportagens e acabam se ligando diretamente à vida e carreira de Fernando Morais. As introduções servem como uma espécie de making off, revelam os bastidores, dificuldades e acasos que envolvem o trabalho de um jornalista.

Thiago Corrêa
lido em Mar./Abr. de 2005
escrito em 30.04.2005

: : TRECHO : :
“O nome do grupo homenageia Augusto César Sandino, o mestiço que armou um exército de índios, em 1927, para lutar contra a ocupação da Nicarágua por marines norte-americanos. Após sete anos de resistência, Sandino foi assassinado por ordem de Anastacio Somoza García, o Tacho, comerciante de automóveis feito general e comandante da Guarda Nacional da Nicarágua – o pai do atual ditador. Quinze anos depois, Tacho Somoza seria morto por um estudante, com um tiro entre os olhos, enquanto dançava um tango num cabaré de Manágua.” (p. 150)

: : FICHA TÉCNICA : :
Cem Quilos de Ouro: e outras histórias de um repórter
Fernando Morais
Companhia das Letras, 1a. edição, 2003
327 páginas

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