Cidade de Deus - Paulo Lins

out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Depois do estardalhaço das três indicações ao Oscar e das inúmeras discussões que sucederam à sua estréia, seria impossível ler o romance de Paulo Lins sem pensar no filme.

Li Cidade de Deus tentando identificar em que aquelas palavras se transformaram no filme, quem era aquele personagem, quais as diferenças entre eles. Tentei percorrer o mesmo caminho dos roteiristas, reconhecendo o que eles usaram, como usaram e de onde é que tiraram as informações para compor o filme.

Fiquei com a impressão de que o filme deu uma organizada no universo contido no livro, mixando personagens, condensando histórias paralelas e com isso, tornando a trama mais concisa, concentrada na ação dos bandidos, no tráfico de drogas e nas brigas entre quadrilhas.

Enquanto que o livro dá a impressão de ter tentado abraçar mais do que podia, como se o livro estivesse inacabado, precisando de alguns ajustes para amarrar a história, dando-lhe uma unidade. Exemplo disso é um parágrafo inexplicável de prosa poética, flutuando no topo da página. Único e solto, esquecido no meio da história.

Outro fator que contribui para isto é o número elevado de histórias e personagens que formam um emaranhado, deixando o romance confuso. Especialmente no início da leitura, quando os leitores estão numa fase de apresentação, receosos, acostumando-se com a técnica narrativa, inseguros com as palavras.

Baseadas na realidade, as histórias são criadas a partir de entrevistas e reportagens de jornais. Às vezes parece até que estamos lendo um selecionado de notícias dos cadernos policiais.
 
E é justamente nestas histórias, que se encontra o grande mérito do livro. Ao contrário do filme, Cidade de Deus não é a história de uma só pessoa, é a história de um lugar, que não se resume à violência e ao tráfico de drogas. Paulo Lins consegue construir o impressionante mosaico que é a Cidade de Deus, recriar seu dia-a-dia, sua atmosfera, dar vida àquilo que repudiamos por medo e ignorância.

Assim, deixa claro que a violência não é apenas assaltos e tráfico de drogas, mas intolerância e rejeição; a violência é vista como um problema social, fruto da falta de oportunidades e educação.

Mostra com detalhes a indústria do tráfico de drogas, as técnicas utilizadas, o poder através da violência, a mitificação de bandidos, a corrupção da polícia, a inversão de valores entre bandidos e policiais, os obstáculos da mobilidade social. Cidade de Deus é um poderoso registro do caos urbano das grandes cidades brasileiras.

Thiago Corrêa
lido em Mar. de 2004
escrito em 24.05.2004

: : TRECHO : :
“Estava era muito puto com a vida. Prendeu um choro, levantou-se, esticou-se para aliviar a dor de ter estado muito tempo na mesma posição, já ia perguntar ao amigo se estava a fim de descolar mais um trouxa, quando notou que a água do rio encarnara. A vermelhidão precedera um corpo humano morto. O cinza daquele dia intensificou-se de maneira apreensiva. Vermelhidão esparramando-se na correnteza, mais um cadáver. As nuvens apagaram as montanhas por completo. Vermelhidão, outro presunto brotou na curva do rio. A chuva fina virou tempestade. Vermelhidão, novamente seguida de defunto. Sangue diluindo-se em água podre acompanhado de mais um corpo trajando calça Lee, tênis Adidas e sanguessugas sugando o líquido encarnado e ainda quente” (pp. 13-14)

: : FICHA TÉCNICA : :
Cidade de Deus
Paulo Lins
Companhia das Letras, 2a. edição
403 páginas

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4 comentários
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  1. Caros amigos do vacatussa, estou linkando esta materia de vocês sobre Paulo Lins com a Materia do Escritor Josê Marques Sarmento no portal Favascontadas qualquer duvida visite nosso site

  2. moss eu quero as informacoes de todos so personagens do livro

  3. [...] pela falta perspectiva enfrentando situações limite. Dois expoentes dessa linha são o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, e o conto Feliz ano novo, de Rubem [...]

  4. Não conhecia o Paulo Lins , vi pela primeira vez no programa provocações, conheci o famoso escritor
    de cidade de Deus. antes imaginava, como alguem poderia contar tão bem a realidade da favela.
    Agora sei .

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