Clamor: A vitória de uma conspiração brasileira - Samarone Lima
out 30th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasEra setembro de 1976, quando os pais uruguaios de Anatole e Vicky foram mortos por militares, durante a ditadura na Argentina. As duas crianças, que presenciaram o assassinato, foram seqüestradas, desaparecendo nos porões da ditadura para desespero dos familiares. Partindo deste caso específico, Samarone Lima começa a narrar um problema que atingiu inúmeras famílias da América do Sul nas décadas de 70 e 80, motivando o surgimento do grupo Clamor, na defesa dos direitos humanos.
No livro Clamor: A vitória de uma conspiração brasileira, Lima conta como o advogado (hoje deputado federal pelo PT) Luiz Eduardo Greenhalgh, a jornalista Jan Rocha e o pastor Jaime Wright resolveram juntar suas forças para denunciar os horrores das ditaduras sul-americanas. Apesar do Brasil na época já viver sob a expectativa da abertura política, os três não se conformaram com o que ouviam de refugiados dos países vizinhos. Os relatos, cada vez mais freqüentes, iam de práticas de tortura ao desaparecimento de crianças.
Com o apoio financeiro do Conselho Mundial de Igrejas e sob a proteção do arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, o grupo teve uma importante participação no combate aos abusos dos militares. A atuação do Clamor se dava em três frentes – na coleta e documentação de relatos, na divulgação dos casos e no suporte jurídico aos familiares de presos políticos.
Agindo de maneira rápida e silenciosa, em parceria com outros grupos de direitos humanos da América do Sul, o Clamor logo conseguiu seus primeiros resultados, passando a ser cada vez mais solicitado para prestar ajuda. Especialmente depois de comprovar o seqüestro de filhos de desaparecidos políticos e a integração dos militares sul-americanos através do caso Anatole e Vicky, que rendeu repercussão internacional. Numa difícil operação internacional envolvendo, além do Brasil, o Uruguai, a Argentina e o Chile de Augusto Pinochet, o grupo localizou as crianças desaparecidas quase três anos depois do assassinato dos seus pais em Buenos Aires, conseguindo impedir o processo de adoção por parte de um casal chileno.
Mas a história contada por Samarone Lima não se restringe apenas ao Clamor. É o relato de uma época, onde divergências políticas podiam resultar em mortes. Onde a dor da perda reforçava os laços de solidariedade. Resgata episódios importantes como o culto ecumênico realizado em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, então diretor de telejornalismo da TV Cultura, morto pelos militares no período mais duro da ditadura no Brasil e o surgimento das Madres de Plaza de Mayo, na capital argentina.
Fruto de um extenso trabalho de pesquisa, o livro, que é resultado de uma tese de mestrado, oferece um rico material sobre o período dos governos militares na América do Sul. Apesar do volume de informações, o autor consegue a proeza de não deixar seu texto truncado, acadêmico demais. A fluidez é a mesma das crônicas escritas pelo autor sobre sua vidinha rotineira no Poço da Panela, capaz de prender o leitor do começo ao fim.
Mas como nem tudo é perfeito, sente-se uma certa distância no que diz respeito aos relatos sobre os horrores das ditaduras. O que se vê são números de mortos, de desaparecidos e a angústia dos parentes pela incerteza do que está ocorrendo. A impressão que dá, em alguns momentos, é que as histórias são narradas de fora, sem o envolvimento humano necessário, como se fossem baseadas em planilhas ou listas de desaparecidos, faltando maiores detalhes para se poder transmitir um pouco da atmosfera de terror da época. Algo que só acontece quando aborda a viagem do jornalista Ricardo Carvalho a Montevidéu, um dos que contribuíram com o Clamor no caso Anatole e Vicky.
Thiago Corrêa
lido em Nov. de 2006
escrito em 18.11.2006
: : TRECHO : :
“A casa de Mario Roger Julien Cáceres e sua esposa, Victoria Grisonas de Julien, na esquina das ruas Mitre e Carlos Gardel, no bairro de San Martín, Buenos Aires, é rapidamente cercada. São muitos carros e até um pequeno tanque. Na sala, Mario e Victoria ainda na sabem da intensa movimentação de dezenas de homens armados e à paisana. Aparentemente, é mais um dia como tantos outros que o casal de uruguaios passa ao lado dos filhos Anatole e Eva Lucia Victoria Grisonas, a Vicky. Anatole, nascido em Montevidéu, acabara de completar quatro anos no dia 22. Vicky, que nasceu em Buenos Aires, em 7 de maio de 1975, tem apenas um ano e quatro meses. Na parede, um calendário marca 26 de setembro de 1976.” (p. 17)
: : FICHA TÉCNICA : :
Clamor: A vitória de uma conspiração brasileira
Samarone Lima
Objetiva
1a. edição, 2003
260 páginas
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[...] antes da renúncia de Fidel Castro ao poder. Ao contrário de seus dois livros anteriores, Zé e Clamor; Viagem ao crepúsculo foi construído como uma antirreportagem, sem fontes oficiais, [...]