Desonra - J. M. Coetzee
out 29th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasCom Desonra, o sul-africano J. M. Coetzee, vencedor do Nobel de 2003, tornou-se o primeiro escritor a ganhar duas vezes o Booker Prize – mais importante prêmio da Grã-Bretanha. Em 1983, Coetzee levara o prêmio com Vida e Época de Michael K.
Em Desonra, com a mesma habilidade em dar fluência às palavras de Vida e Época de Michael K, o escritor sul-africano conta a história de David Lurie, um professor universitário, duas vezes divorciado e pai de Lucy, filha do primeiro casamento. Aos cinqüenta e dois anos, Lurie percebe a ação do tempo e pressente que muito em breve será carta fora do baralho. Envolve-se com uma de suas alunas, o que resulta num escândalo e em sua demissão. Resolve viajar, vai ao campo visitar a filha, querendo paz para reorganizar a vida e escrever sua tão adiada ópera sobre Byron.
Mas o que acaba encontrando é uma filha distante, com personalidade forte, numa vida simples e sem luxo, algo bem diferente do que ele imaginara para ela. Há uma tensão na relação entre eles, Lurie não sabe como chegar até Lucy. Tenta se reaproximar, mas esbarra nos seus preconceitos, não entende a simplicidade e falta de motivações da filha.
Lurie vai descobrindo que ali, no campo, existe uma nova África que vai além da oficial, longe da sua realidade. Coetzee ainda retoma a temática de Vida e Época de Michael K, fala sobre a disputa de terra na África do Sul e os conflitos sociais, que não se restringem à questão racial. Esta existe, é citada, mas é como se o problema não fosse esse. A questão racial não é primordial, é apenas um detalhe, quase irrelevante.
David Lurie é o que há de melhor em Desonra. Apesar de ser menos ácido, lembra o personagem de Dostoiévski em Memórias do Subsolo. Lurie é dono de um senso crítico apurado que lhe condena à intransigência e, por isso, causa um certo mal estar, despertando um desagradável incômodo nas pessoas que o cercam. Recusa-se à hipocrisia do politicamente correto e às convenções sociais, age conforme suas próprias regras. É dotado de ideais e preconceitos com os quais já desistiu de lutar. Ele é assim mesmo e pronto.
Desonra é um livro abrangente, difícil de ser classificado. Possui passagens claramente políticas, críticas às convenções sociais e ainda aborda o prazer e as dificuldades da criação artística. Contudo, o que acho mais importante no livro, é a desonra do título, que não é do envolvimento de Lurie com uma de suas alunas, nem da disputa de terra ou do racismo. É uma desonra que ninguém escapa, a velhice.
Thiago Corrêa
lido em Mar. de 2005
escrito em 20.03.2005
: : TRECHO : :
“Um belo dia, tudo isso acabou. Sem aviso prévio, ele perdeu os poderes. Olhares que um dia correspondiam ao seu deslizavam como se passassem através dele. D noite para o dia, virou um fantasma. Se queria uma mulher, tinha de aprender a conquistá-la; muitas vezes, de uma forma ou outra, tinha de comprá-la.” (p. 14)
: : FICHA TÉCNICA : :
Desonra
J.M. Coetzee
Trad. José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 2a. edição
246 páginas
Gostei da crítica, mas tenho um entendimento diferente quanto à razão do título. No decorrer da narrativa, acontece um fato monstruoso com Lucy (que não vale ser revelado aqui, para não privar do privilégio do mistério os leitores que ainda não concluíram a leitura das páginas de Coetzee; mas quem já terminou o livro sabe do que estou falando), Acredito que esteja aí a origem do título.
A outra possível interpretação está na assimilação de David Lurie sobre a própria insignificância e falta de escrúpulos. Já faz dois anos que li “Desonra”, mas está viva na memória a impressão de que Lurie era, na verdade, um grande covarde. Nesse sentido, o “camundongo” ao qual faz alusão Dostoiévski em “Memórias do Subsolo”, é paradoxalmente muito mais valente do que Lurie, pois sua hiperconsciência não lhe permite esconder-se atrás da própria mesquinhez; noutras palavras, ele assume sua pulsão de insignificância (pulsão pois é quase uma vontade deliberada de ser um nada, mas nem isso o “camundongo” consegue atingir) e por mais que tente, não consegue culpar os outros por ela. É desta maneira que vejo algum tipo de semelhança entre os personagens de Dostoiévski e Coetzee.