Dez mil: a autobiografia de um livro - Andrea Kerbaker

out 30th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Pequeno no tamanho e na qualidade

Com um argumento curioso, o livro Dez mil: autobigrafia de um livro, do italiano Andrea Kerbaker, promete uma inusitada experiência metalingüística ao contar a vida de um livro sob a narração do próprio livro. Mas tudo não passa de uma promessa. A maneira mecânica com que o autor escreve só não provoca uma desistência do leitor por não haver tempo suficiente para isso, pois, graças às letras grandes e tanto o formato quanto o número de páginas serem pequenos, a leitura acontece sem esforço, do mesmo jeito que assistimos televisão para pegar no sono ou lemos os ingredientes de um xampu enquanto estamos no banheiro.

Disparando frases curtas e objetivas, Kerbaker conta toda a trajetória de um livro sob ameaça de ser reciclado, caso não seja vendido até o verão. Em meio à angústia e expectativa de ser comprado, o livro lembra dos seus três donos anteriores, das conversas com os companheiros de estante e das vezes em que foi lido. Assim, o autor vai percorrendo décadas numa viagem cercada por mudanças comportamentais em relação aos livros, ante as inovações tecnológicas como o surgimento da televisão e da internet, fazendo com que eles sejam colocados numa balança entre ser um bem cultural ou mero objeto.

Mesmo sem revelar quem é, fornecendo apenas algumas pistas sobre o seu autor e edição, o livro-narrador mostra-se incompatível com o livreto que temos em mãos. Enquanto um sofre com os desgastes do tempo, o outro ostenta todos os predicados de um livro novo: capa, cheiro, página limpas e brancas. O que mostra o caráter comercial da publicação, numa falta de ousadia ao não transpor para a edição as características do livro-personagem, já criando o clima do enredo através da identidade visual. Se bem que, pelos elogios do narrador a ele próprio, os livros não poderiam ser os mesmos. Dez mil deveria ir direto para a reciclagem.

Thiago Corrêa
lido em Mar. de 2006
escrito em 15.03.2006

: : TRECHO : :
“Esses sim, que mereciam ser considerados obsoletos. Enquanto eu sou fruto de um autor à altura de um Hemingway, de um Steinbeck. Não foi prêmio Nobel, concordo, mas o clima é o mesmo. Um dia desses tenteis explicar isso aos meus companheiros de agora, mas eles olharam para mim com tanta presunção que senti vontade de cuspir-lhes na cara, sobretudo na de Hemingway, é claro. Certamente ele devia estar de porre.” (pp. 40-41)

: : FICHA TÉCNICA : :
Dez mil: autobiografia de um livro
Andrea Kerbaker
Trad. Mario Fondelli
Rocco, 1a. edição, 2005
83 páginas

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