Em Desconstrução | Uma Longa Caminhada
out 27th, 2008 | Por Mário Lins | Seção: Em DesconstruçãoUma Longa Caminhada
Mário Lins
É longe pracaralho, mas eu vou. Os primeiros passos são sempre mais difíceis. Depois meus pés vão meio que relembrando as passadas, ecos de antigas caminhadas através de paisagens que nunca mais voltaram. Os cheiros e sons do carnaval escorrem pelos becos e ruelas de Olinda, a folia agonizando seus últimos instantes. Relutante, a festa vai cedendo a madrugada para a quarta-feira de cinzas. O último bloco guardou seu estandarte, dando a largada pra uma caminhada impensada.
Um pé na frente, o outro acompanha. Ao fim da passada, um novo começo. Pra frente, andando, um passo, mais outro, marchando, no ritmo, cruzando, o espaço.
Desço a Cidade Alta devagar. A ladeira me empurrando, seus paralelepípedos cedendo espaço pro asfalto lá embaixo. Sigo em frente, enquanto a decisão de ir embora me acelera as pisadas. Mágoa, bebida e cansaço se misturam num combustível amargo. Mas eu vou.
Os passos incertos do começo vão ficando pra trás, passos de quem não quer, passinhos pequenos e lentos de quem espera ser alcançado, seguindo bem devagar pra dar tempo de não me deixarem ir. Mas nada acontece, ningém chama meu nome nem me pega pela mão. Ela não aparece pra me fazer ficar.
Então meus pés vão criando cada vez mais coragem, se empolgando, lembrando de como é bom fazer o vento passar mais rápido, vendo o cenário mudar no ritmo deles, meus pés que não sentiam essa liberdade desde não sei quando, e agora andando, deixando Olinda pra trás, indo pra casa numa madrugada quente de fevereiro, caminhando rápido, tirando a camisa, o suor escorrendo pelas costas e a respiração acelerada, os pensamentos a mil.
—
Já é fevereiro, madrugada deserta, não que durante o dia as pessoas costumem caminhar por aqui, ninguém a não ser os carros, mas é madrugada e também é quarta-feira de cinzas, por isso o caminho inteiro vai surgindo deserto. E eu andando, sozinho, posso ser assaltado, nada pra roubarem, talvez os tênis. Custaram caro. Por certo os tênis eles levariam, mas não tenho mais nada, no bolso só essas moedas, o que, uns três ou quatro reais no máximo. Comprar água gelada.
Viadutos são feitos por pessoas, então por que diabos eles não são feitos para pessoas? Vou pela mureta branca da direita, que a do outro lado é junto da faixa de alta velocidade, estatisticamente devo ter menos chance de morrer do lado de cá, me equilibrando nessa faixa branca e íngrime, um pé na frente do outro, aqui é alto pracaralho, me estatelar lá embaixo, ninguém ia me achar. Não pensa nisso, anda anda que tudo passa, até o medo fica pra trás, pronto, passou, uma boa história pra contar depois. Idiota, mas, ainda assim, uma boa história. Se ao menos eu conseguir chegar, tanta coisa ainda pode, melhor não.
Preciso mijar, banheiro nenhum, tô no meio do nada, só os carros passando vez em quando, ninguém vai ver, nesse terreno baldio, aliás, baldio não, que tem uma barra de futebol ali, nesse campo, vai aqui mesmo, pela grade, nunca gostei mesmo dessa porra de futebol, mas um barulho, luz, farol, carro vindo lá do outro lado. Sem problema, tô de costas mesmo, vão ver nada, camisa na mão, cuidado pra não molhar, pronto, melhor agora, andar mais e mais e mais, depois casa.
Aqui começa a Agamenon, ainda longe longe, mas já é Recife, Olinda ficou antes, não tô mais agora, pelo menos isso. Ali o centro de convenções, atravessamos pra sala da justiça, não hoje, antes, estacionei do outro lado, no shopping, e cruzei bem aqui, era também dia do municipal, não no centro de convenções, do lado, no sei-que-lá hall, a gente feliz, e agora eu andando, depois de brigar sei lá por quê. Ligar quando chegar, pro celular dela, tá tudo bem, cheguei, beijo, tchau, eita porra, tô sem celular. Mas sei o número dela ainda, não sei? Sei sim, sei de cor, mesmo sem celular.Mesmo ela tendo mudado. Ligar do fixo em casa. Isso. Merda, sem chave de casa também, como faço pra entrar?, dormir no hall não, chegar na portaria e interfonar. Não, aí acorda todo mundo, não quero explicar nada, posso tocar a campainha, talvez papai na sala, ou então bater na porta de trás, isso, bater na porta junto do quarto de empregada, Fran acorda cedo, talvez escute, sim, pode ser, quando for mais perto eu vejo se vai dar certo. Se bem que o fixo lá de casa não liga pra celular, complicação ducaralho! Calma, pensa que resolve, pensa pensa pensa, sem celular, sem fixo pra ligar, ligar da rua a cobrar?, não, só ligar quando chegar pra avisar e pronto, nem dizer que fui andando, só se ela perguntar. Pegar o celular de alguém em casa? Marcela acordada, isso, dormindo tarde, de férias, só deita quando amanhece, o celular dela emprestado, ela pode abrir a porta também. Eu vou.
Um casal, bêbados talvez, assalto não, melhor ter cuidado mesmo assim, cruzar com eles daqui a pouco, ele tá gritando alguma coisa, Aqui não é tua casa, Solange! Tua casa é lá, Solange!, a mulher caiu no chão, fodeu, isso vai dar merda, Levanta Solange!, melhor olhar pro chão e fazer que não tô vendo nada, vamo lá, tô passando, Levanta, Solange!, caralho, ele tá dando uns tapas nela, ou acho que tá, não tenho certeza mas nem vou olhar, já passei, vou embora, Solange, levanta que tua casa não é aqui, Solange!, vão ficando pra trás, cada vez mais longe, acho que tô seguro agora, será que ele tava batendo mesmo ou eu que inventei?, não sei, talvez.
Agora já bem mais perto, João de Barros finalmente, voltava andando por aqui do trabalho antigo até em casa, um caminho conhecido, se bem que é tarde, só esses poucos carros passando, levando os bêbados de volta da farra, eu tô me levando de volta pra casa, e até essas ruas familiares parecem esquisitas, estranhas, ameaçadoras, ruas cheias de más intenções, esperando apenas que você se distraia, igual ao roteiro que bolei com Jacques, meu bom e velho amigo Jacques, como era mesmo?, sobre um mal antigo que existia debaixo da avenida norte e ela ganhava vida. A avenida norte virava Avenida Morte, e o asfalto, o concreto, sei lá, ele engolia os carros, literalmente um monstro disfarçado de rua, era pra ser uma homenagem a todos os filmes trash da nossa infância, mas nem vingou.
Pé esquerdo tá doendo, calo no calcanhar. Se enfiar o pé mais pra frente do tênis ajuda?, melhor, mas fico mancando de leve, nada grave, só preciso cuidar pra não piorar. Já andei duas semanas inteiras na chapada sem ter um calo, agora isso? Se bem que antes, com botas apropriadas, amaciadas e duas meias protegendo os pés, uma fina por dentro e uma grossa por cima, mesmo andando oito horas por dia era confortável. Agora só uma meia e o tênis, daí o calo. Paciência. Anda anda que chega logo e dá pra tirar o sapato, a meia vai colar na ferida, tirar com um puxão rápido, doer menos assim, depois fica bom.
Ali o cruzamento com a Rosa e Silva, passava aqui antigamente, ainda no outro trabalho, quando voltava a pé. Mas antes disso também, na época da faculdade, a gente passava correndo por aqui, eu e João, o mago João, indo pra academia. Andava até a casa dele, depois a gente correndo por aqui, maluquice, hoje mais não que o joelho incomoda, o joelho que eu estraguei naquela gruta da chapada, cinco horas andando agachado pelos salões de teto baixo e ele nunca mais foi o mesmo, agora correr não é bom, mas dá pra andar bem rápido.
O suor nas costas tá gelado, deve ser a noite, menos quente agora, se pelo menos fosse assim de dia. Suor com cheiro estranho, cloro ou algo assim, meu cheiro misturado com outro, estrangeiro, não inteiramente bom nem ruim, apenas azedo, mas, ainda assim, meu. O cheiro que ficou na cama, no travesseiro dela.
Agora já na reta final, menos de três quilômetros até o fim da rua e pronto, vou conseguir, vou ter voltado andando de Olinda, coisa burra, mas ainda assim uma boa história, talvez atropelado, assaltado, agredido, mas inteiro, brilhando de suor gelado, calo no pé e uma confiança idiota de que vai dar tudo certo, se eu chegar em casa vai dar tudo certo, não só porque eu consegui, mas porque vai ficar tudo bem, vai dar tudo certo na minha vida, todas as próximas etapas vão sair do jeito que eu planejei, vamos todos ficar bem, escutem irmãos, vamos ficar bem, eu prometo.
Vamos. Ficar bem, tomara que sim, melhor que uma madrugada morta no fim do carnaval, sei lá, melhor que sorrisos de mentira só por educação, nessa pracinha a gente foi assaltado. Faz tempo, muito tempo, engraçado como o tempo passa e a gente continua andando pelos mesmo lugares, a vida dando voltas e não saindo do lugar, mas há muito tempo passamos aqui, eu, Leo e Paulo, e fomos assaltados por um bando de moleques não muito mais velhos que nós, tínhamos uma caixa cheia de hamsters, um dos moleques gritou Rato! quando a caixa caiu e nossos hamsters saíram correndo pra dentro da praça, livres, mas agora uns 15 anos depois eu ainda ando por aqui, pelos mesmos caminhos que já passei tantas vezes, será que já não devia estar bem longe? Porque todos os lugares por onde andei, desde que desci a ladeira lá atrás, no começo da madrugada, desde que meus pés retomaram o ritmo da marcha, são velhos conhecidos, e agora parece que dá uma grande decepção, antes eu tinha tantos sonhos e expectativas mas agora ainda aqui, ainda passando por cima de caminhos já traçados, pisando sobre memórias de roedores, sobre lembranças de retornos do trabalho, ruas tristes que já me viram demais. Talvez eu só esteja cansado, deve ser isso. Foi uma longa caminhada.
Alô? Oi, cheguei em casa. Ah, porque voltei andando. Foi. Amanhã a gente conversa…
…Te amo. Tchau.