Lavoura Arcaica - Raduan Nassar
out 30th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasRuínas de um labirinto familiar
Em 30 anos de carreira, Raduan Nassar publicou apenas três livros. O primeiro foi Lavoura Arcaica (que agora é relançado pela Companhia das Letras em edição comemorativa). Após ele, ainda saíram Um copo de cólera e Menina a caminho, mas ambos haviam sido escritos antes. Depois, nenhum. Nassar abandonou a literatura e agora vive recluso em sua fazenda no interior de São Paulo.
A verdade é que depois de Lavoura Arcaica, ele não precisava mais escrever. Como certa vez disse o filósofo francês Gilles Deleuze, parafraseando Proust, “o escritor cria uma língua estrangeira, que não é uma outra língua, nem um dialeto regional redescoberto, mas uma minoração da língua maior, um delírio que a arrasta, uma linha de feitiçaria que foge ao sistema dominante”. E foi exatamente isso que Nassar conseguiu. Subverteu a ordem, desvirtuou a linguagem, criou uma maneira própria de escrever.
Dividido em duas partes – A partida e O retorno – a história é contada a partir de André, que após ter fugido de casa, recebe a visita do seu irmão mais velho, Pedro, num quarto de pensão onde está hospedado. A tensão entre os dois, que se dá na maior parte através de silêncios, vai revelando os motivos que levaram André a abandonar o lar. Reprimido pela lentidão da vida na fazenda, pelo autoritarismo do pai, religiosidade e o tradicionalismo da família e pelo seu amor por Ana, sua irmã; ele foge, atormentando-se na solidão, embriagando-se de liberdade em bordéis.
É através da alma perturbada e confusa de André que o autor consegue explorar os limites da linguagem. Com sua prosa poética, ele foge do convencional, nos desafia com suas metáforas, vai minando nossas certezas. É com esse sentimento delirante, nesse mix estético, entre o repulsivo e o belo, que vamos seguindo na narrativa. Entramos num labirinto onde as paredes parecem desmoronar, da mesma maneira que acontece com a estrutura familiar após a saída de André. E os escombros de lembranças sufocam, exigem um esforço só alcançado pela fúria para poder se respirar novamente.
O último quarto do livro é dedicado a volta de André. O clima festivo das irmãs pelo seu retorno, a ausência de Ana, o sentimento de culpa despertado pelo reencontro com a mãe, a angústia de Pedro pelo segredo guardado, a tomada de satisfação do pai e a conversa com Lula, o irmão mais novo; tudo isso ocupa a mente de André, fazendo com que a narrativa ganhe agilidade por ocorrer mais no campo das ações do que em seus pensamentos. É como se a contradição da mente (eufórica X deprimente) de André ganhasse vida, se personificasse na família e mostrasse o quanto a beleza e a loucura caminham juntas.
Thiago Corrêa
lido em Dez. de 2005
escrito em 27.12.2005
: : TRECHO : :
“Eu disse aos berros, me agitando, e vendo em meu irmão surpreso, susto, medo e muito branco na sua cara, eu, que podia ainda gritar ‘tape os ouvidos, enfie os dedos no buraco’, eu, deslocado de um canto para o outro, eu de repente me pus de joelhos, me sentando sobre os calcanhares, e vendo sua mão trêmula, ele próprio decidindo encher de novo nossos copos, eu, tomado de dubiedades, já não sabia se devia esmurrá-lo no rosto ou beijá-lo nas faces;” (p. 47)
: : FICHA TÉCNICA : :
Lavoura arcaica
Raduan Nassar
Companhia das Letras, 3a. edição, 2002
196 páginas
Thiago que resenha bonita vc fez. A melhor que li, e já li várias.
Sou enamorada pelo Raduan- tb acho que não precisaria dizer mais nada-
é o que faz hj.
Vc diz em poucas palavras o que se desenvolve no livro- parabéns.
Já falei em Raduan aqui no meu blog.
http://lauravive.blogspot.com/2005/08/raduan-nassar-e-lavoura-arcaica-o.html
preciso revisar este post, faço sem revisão de outros, acabo errando.
abração, Elianne ou Laura