Memórias do Subsolo - Fiódor Dostoiévski
out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasSeria prepotência da minha parte, um atrevimento sem tamanho, querer esmiuçar a obra de Dostoiévski. Ler um autor deste nível é um desafio. Tudo já está tão consolidado, o nome Dostoiévski se impõe de maneira tal, está tão além da minha insignificante capacidade de análise que fico inibido. Encarei as palavras de Memórias do Subsolo como se estivesse adentrando numa catedral neogótica, embasbacado com a grandiosidade e riqueza de detalhes, com a sua onipotência, sem a ironia e crítica do texto O Novo Citroën de Roland Barthes.
Memórias do Subsolo se divide em duas partes. A primeira, O Subsolo, é a teorização das idéias do narrador/personagem. Ele expõe suas idéias como se estivesse dialogando com o leitor, supondo suas reações, prevendo seus comentários. O discurso é direto, dono de uma acidez cultivada em vinte, quarenta anos de auto-flagelamento de alguém que de tanto remoer em culpa por ser o que é, aprendeu a sentir prazer disto.
O narrador/personagem teoriza sobre sua consciência, sofre com a sofisticação e exigência dela. Consciência de que é ridículo e de que todos a sua volta são imbecis, deixando-o incapaz de manter uma relação social. A sua consciência resulta na inércia que lhe impede até mesmo de ser preguiçoso. É a consciência da covardia. Ele sabe o que está errado: ele, os outros, o mundo, o sistema; mas é incapaz de lutar por mudança pois sabe que é inútil, conhece a sua insignificância e a sua incapacidade de mudar.
Mas isto não o impossibilita de falar, ataca o positivismo, repudia a idéia da submissão humana às leis da natureza e a lógica da razão, a ponto de romper com elas, mesmo que isto resulte em sua degradação humana.
As memórias só aparecem na segunda parte. Somente nela é que se tem uma história propriamente dita, com seqüências, ação e personagens. Aqui o narrador torna-se mais personagem. São episódios seqüenciados de um período da sua vida, que de tanto sofrer remoendo-os, ele sente a necessidade de despejar tais episódios no papel, numa tentativa de aliviar-se. Surgem dados concretos do personagem/narrador, da sua infância, da sua rotina. Sua vida é traduzida na prática, mostra as conseqüências, os empecilhos que surgem na vida de alguém com tamanha consciência.
Alguns episódios chegam a ser esdrúxulos. Talvez por não ter poder suficiente para modificar as grandes coisas, ele cuida de tentar mudar, simples fatos cotidianos como o de ceder passagem a uma outra pessoa na rua. Ele teoriza sobre isso enquanto conta como foi seu duelo não-declarado com um oficial, planeja com detalhes como deverá ser o encontrão deles, o grau de intensidade, suas vestimentas na ocasião; tudo isso para não dar passagem ao oficial.
E não pensem que ele relembra isto por arrependimento, ele se tortura por gostar de rir de si mesmo, por sentir-se humilhado e, com isso, fica se admirando por ser o que é, por ter escolhido o caminho que escolheu, por mais tortuoso e amedrontador que seja, pois, afinal de contas, pergunta ele: “o que é melhor, uma felicidade barata, ou um sofrimento elevado?” (pág 145).
Thiago Corrêa
lido em Abr./Mai. de 2004
escrito em 09.06.2004
: : TRECHO : :
“Ali, no seu ignóbil e fétido subsolo, o nosso camundongo, ofendido, machucado, coberto de zombarias, imerge logo num rancor frígido, envenenado e, sobretudo, sempiterno. Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores; e cada vez acrescentará por sua conta novos pormenores, ainda mais vergonhosos, zombando maldosamente de si mesmo e irritando-se com a sua própria imaginação. Ele próprio se envergonhará dessa imaginação, mas, assim mesmo, tudo lembrará, tudo examinará, e há de inventar sobre si mesmo fatos inverossímeis, com o pretexto de que também estes poderiam ter acontecido, e nada perdoará”. (p. 23)
: : FICHA TÉCNICA : :
Memórias do Subsolo
Fiódor Dostoiévski
Trad. Bóris Schnaiderman
Ed. 34, 3a. edição
152 páginas
terminei ontem de ler as “notas”. Gostei muito de ler suas observações sobre a obra.
Felicidades!
Sua leitura e resenha do notas, é a mais legal q eu já li!
Parabéns!
Nossa…. que crítica fantástica!!
Precisarei fazer um seminário sobre a obra… e a sua crítica vai me ajudar muito!
Saberia dizer se existe filme sobre esta obra?
Parabéns…
Sucesso!