O caçador de pipas - Khaled Hosseini

out 30th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Com mais de 2 milhões de exemplares vendidos nos Estados Unidos, O caçador de pipas vem há mais de um ano marcando presença nas lista dos mais vendidos do The New York Times e já teve seus direitos comprados por 29 países, inclusive o Brasil, onde foi publicado pela Nova Fronteira. Aqui, o seu desempenho não foi diferente. Só no ano passado, foram vendidos cerca de 65 mil exemplares e, desde o seu lançamento em setembro de 2004, permanece em todas as listas de mais vendidos.

O sucesso editorial de O caçador de pipas tem explicação. No pós 11 de setembro, tempos onde simples caricaturas de Maomé num jornal da Dinamarca pode gerar protestos, ameaças de bomba e mortes no mundo árabe, nada mais oportuno do que uma história com temas universais (amizade, inveja e preconceito), que mostra as peculiaridades da cultura muçulmana através de um olhar ocidentalizado.

Em seu romance de estréia, o médico Khaled Hosseini, nascido em Cabul, mas que desde os quinze anos mora nos Estados Unidos, aproveita lembranças da infância em sua cidade natal para contar a vida de Amir e sua amizade com Hassan. Os dois cresceram juntos, não conheceram suas respectivas mães e, por isso, foram amamentados pela mesma ama de leite. Divertem-se empinando pipas e assistindo filmes de caubóis americanos num Afeganistão pré-comunista, ainda não muito estranho à lógica ocidental.

Mas as semelhanças entre eles param por aí. Enquanto Amir é bem nascido, estuda e é paparicado por ser filho de Baba, o outro sofre as conseqüências de ser um hazara, etnia considerada inferior pelos afegãos. Hassan é analfabeto, sofre discriminação, mora num casebre localizado nos fundos da mansão de Amir, que ajuda a cuidar junto com Ali, seu pai. Amir sonha em ser reconhecido por Baba, Hassan por Amir. Diferenças que influenciaram suas personalidades e os rumos da vida.

A partir desses pólos de tensão, Hosseini constrói sua história, que acaba pendendo para um só lado. A causa está na narração em primeira pessoa, a serviço de Amir (os hazaras, mais uma vez, continuam sem voz), gerando uma proximidade com o leitor, influenciando sua percepção e amenizando as crueldades cometidas pelo narrador. Então o que deveria ser o triunfo do mau caráter, mais parece uma redenção. Algo que até poderia acontecer, caso o sentimento de culpa de Amir fosse convincente.

Talvez como uma forma de superar a falta de experiência, o autor tenha escolhido preocupar-se mais com o conteúdo histórico do Afeganistão – costumes, tradições, invasão russa, regime Taleban – do que com o cuidado estético da obra. Chega a incomodar o didatismo adotado por Hosseini. Ao invés de tratar os conflitos do seu país através apenas do cotidiano dos seus personagens, como fizeram Ismail Kadaré em Abril Despedaçado e J. M. Coetzee em Vida e Época de Michael K, o autor abre espaços para explicações que poderiam muito bem estar em notas de rodapé. O resultado é um romance com toques de livro de História de 1o grau. Isso sem falar na maneira como os capítulos terminam, sempre com uma frase de efeito, lembrando um folhetim, já sinalizando os próximos acontecimentos para despertar curiosidade suficiente e prender o leitor.

Thiago Corrêa
lido em Jan./Fev. de 2006
escrito em 11.02.2006

: : TRECHO : :
“Tudo aconteceu exatamente do jeito que eu tinha imaginado. Abria a porta do escritório enfumaçado e entrei. Baba e Rahim Khan estavam tomando chá e ouvindo as notícias chiadas no rádio. Ambos viraram a cabeça. Então apareceu um sorriso nos lábios do meu pai. Ele abriu os braços. Pus a pipa no chão e me dirigi para aqueles braços fortes e peludos. Enterrei a cabeça no calor do seu peito e chorei. Baba me puxou para si e ficou me embalando, para frente e para trás. Nos seus braços, esqueci o que tinha feito. E isso foi ótimo.” (p. 84)

: : FICHA TÉCNICA : :
O caçador de pipas
Khaled Hosseini
Trad. Maria Helena Rouanet
Nova Fronteira, 1a. edição, 2005
368 páginas

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2 comentários
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  1. acertada!
    boa.

  2. [...] tática vem servindo para confecção desde best-sellers como O código Da Vinci, O caçador de pipas e os romances de Jô Soares à literatura de autores importantes como Luis Fernando Verissimo, [...]

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