O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio - Charles Bukowski

out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Com relação aos livros, sinto-me uma mulher num shopping. Daquelas que olha tudo o que é vitrine, entra em tudo o que é loja, prova tudo quanto é roupa e no final não compra nada. Faço a mesma coisa quando encontro uma livraria. Mesmo que não tenha um real no bolso, só pra ter contato com os livros e assim reforçar minha dedicação em economizar para tê-los.

É um ritual. Procuro quase sempre os mesmos livros. Retiro da prateleira, dou carinho aos livros. Abro para saber qual a cor das páginas, a fonte, o cheiro do livro. Vejo a capa, leio a contra-capa, as orelhas. Geralmente abro na primeira página para ler a frase inicial, mas quando não é romance, abro aleatoriamente.

O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio era um desses livros que costumava visitar nas livrarias. Não era caro, eu até tinha esse dinheiro. O problema é que era um livro de bolso. Sou cheio de frescuras. Livro pra mim tem que ser agradável, grande, letras grandes. O papel tem que ser áspero, grosso e de preferência amarelado, não de velho, tenho alergia. Gosto de capas que permitam o deslize das minhas mãos, ativando-as. Não gosto das plastificadas, elas são grudentas e brilhosas.

OK, O capitão… tem letras grandes, papel áspero, grosso e amarelado. Mesmo plastificada, a capa continua sendo agradável. Mas é um livro de bolso e livros de bolso são pequenos, na prateleira, ficam escondidos junto dos outros. Tudo isso me fez retardar o encontro com Bukowski. Era como estar atraído por uma ninfeta, mas ficasse enrolando enquanto esperava que ela completasse a maior idade.

Até que abri o livro e li isso: “Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo” (p. 12). Pronto, foi como se a ninfeta cochichasse alguma safadeza em meu ouvido.

O capitão… é um livro póstumo, reunindo uma seleção de trechos do diário de Bukowski, escritos já no fim da vida. Percebendo a morte, ele parece fazer um balanço sobre suas bebedeiras, relacionamentos, dinheiro e as dificuldades encontradas por ser um escritor contra o sistema. Tudo com muita ironia, escracho e despretensão.

Porém, como acontece em todo diário, O capitão… cai no simples relato da rotina: as visitas ao hipódromo, os gatos, às noites escrevendo em frente ao computador. O que no início chega a ser curioso, mas depois torna-se enfadonho, repetitivo. Uma rotina que Bukowski percebia, criticava, mas por uma questão de necessidade, não podia se libertar.

Talvez por ser justamente desta rotina, dos momentos mais banais que ele alcançava suas idéias mais interessantes. Bukowski tira leite de pedra, através das aparentes cinzas da insignificância, ele renasce com toda a sua genialidade. Um exemplo disso são àquelas maravilhosas frases que me fizeram comprar o livro; antes de chegar até elas, Bukowski divagava sobre a hipótese de cortar suas unhas do pé.

E é vivendo como o inimigo, na rotina do sistema que Bukowski se encontra, chegando aos seus melhores momentos na luta travada contra o sistema, contra a rotina que ele foi obrigado a sentir falta, o desperdício de vida que ele enxergava enojado. Luta solitária, de guerrilha que ainda não terminou, mesmo morto, Bukowski continua lutando através das palavras.

Thiago Corrêa
lido em Nov. de 2003
escrito em 28.11.2003

: : TRECHO : :
“Às vezes, me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há um câmera. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um filme ruim”. (pág. 69)

: : FICHA TÉCNICA : :
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio
Charles Bukowski
LP&M

Tags: , , , ,

2 comentários
Comente »

  1. Não sei se o livro é realmente bom, mas me senti atraído pelo título. Tanto que comprei para presentar um gerente meu. Era justamente isso que acontecia quando ele deixava a seção na hora do almoço!

    Abraços e parabéns pelo belo blog.

  2. Este livro contém passagens muito intressantes. Como descrito na crítica, por conter trechos de um diário por vezes se torna cansativo. Mas vale a pena. É Bukowski.

    Obs.: O velho Buk reprovaria alguém que entrega os colegas de trabalho. O tal gabriel levaria um murro no meio da cara.

Comente