O segredo de Joe Gould - Joseph Mitchell
out 30th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasA idéia de que é preciso escrever bem para ser jornalista paira sobre o senso comum. Mas na correria do dia-a-dia, com as (in)condições de trabalho dos jornais diários e o sufocamento criativo provocado pelas exigências técnicas do modelo americano adotado no Brasil, o que se vê nas redações é a escrita sendo utilizada apenas como uma ferramenta comunicativa. O estilo, a criação e a emoção, quando muito, ficam relegados ao segundo plano. O objetivo é passar a informação de maneira rápida, concisa e eficiente, despejando as notícias mais importantes logo no primeiro parágrafo, no chamado lide. Para isso, basta informar o quê? quando? onde? e por quê? de determinado fato.
Raros são os veículos que fogem a esse modelo. Talvez o mais expressivo deles seja a revista The New Yorker, um ícone do jornalismo literário que já abrigou nomes como Truman Capote (A Sangue Frio, Bonequinha de Luxo), J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio), John Hersey (Hiroshima), Vladimir Nabokov (Lolita) e Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser). O maior mérito da revista, no entanto, não está nas assinaturas deles, e sim na paciência, liberdade e segurança oferecida por ela para conseguir atrair tantos nomes de peso.
Trabalhar na The New Yorker era o sonho de qualquer jornalista que desejasse mais para o seu texto do que servir de embalagem de peixe no dia seguinte. Além do reconhecimento profissional e financeiro, a revista não oferecia barreiras a criatividade dos seus colaboradores com prazos, limites de espaço e padronizações. Não à toa, foi lá que despontou o talento de Joseph Mitchell. Recebendo normalmente um salário anual de US$ 20 mil, Mitchell podia passar dois anos escrevendo uma mesma matéria.
Sem essas condições, dificilmente o mundo ficaria sabendo da existência de Joe Gould, um mendigo boêmio de Nova Iorque que ganhou fama depois de ter seu perfil escrito por Mitchell e publicado em 1942, pela The New Yorker. Em seguida, em 1964, o jornalista publicou outro perfil de Gould, já morto, que juntamente com o primeiro, virou o livro O Segredo de Joe Gould.
Com um olhar atento para aquelas pessoas que poucos enxergariam uma boa história, Mitchell viu em Gould um ótimo personagem. No primeiro perfil, intitulado O Professor Gaivota, ele descreve um Gould excêntrico, cheio de manias. Um velho bêbado bom de papo, que freqüenta as rodas de artistas nova-iorquinos, diz saber a língua das gaivotas, carrega um saco com guimbas de cigarro achadas na rua e que já foi repreendido em lanchonetes pelo seu hábito de comer ketchup. Entre as façanhas que marcaram a vida de Gould, estavam o fato de ter medido a cabeça de mil índios na Dakota do Norte e o seu livro ainda não terminado Uma história oral do nosso tempo. Nele, o boêmio pretendia escrever os relatos de pessoas comuns que ouvia nas ruas, no metrô, nos bares e restaurantes. A idéia era registrar aquilo que passaria desapercebido pela versão oficial da História.
Apesar de ser divertido, o perfil não passa de curioso. Já na sua seqüência (O Segredo de Joe Gould), o senso crítico de Mitchell vem mais apurado. A imagem peculiarmente engraçada de Gould é desconstruída. Ele passa a ser mostrado como alguém aproveitador, depressivo e mentiroso.
Em meio a um misto de descrença e fascinação pelo personagem, Mitchell manteve uma relação de amizade (às vezes indesejada) com o boêmio até o fim da vida. Ao contrário do que acontece na primeira parte, Mitchell se coloca de vez no texto e conta todo o processo de feitura dos perfis. É nessa revelação dos bastidores – como surgiu a idéia de escrever sobre Gould, a repercussão do Professor Gaivota, a investigação sobre a existência de Uma história oral do nosso tempo – que se percebe realmente o trabalho de Mitchell. Nem tanto pela escrita, mas pela paciência no esforço de apuração, lealdade e cuidado com as informações que está passando.
Mesmo depois da decepção ao descobrir o segredo a que se refere o título do livro, o jornalista continuou a se dedicar a Gould, recebendo-o em seu escritório e ouvindo pacientemente suas histórias. Talvez essa relação só tenha durado, justamente pelo fato de ambos enxergarem beleza na insignificância das pequenas coisas.
Thiago Corrêa
lido em Set./Out. de 2006
escrito em 04.11.2006
: : TRECHO : :
“A princípio fica num canto, quieto, tenso, duro como uma tábua, fumando um cigarro após outro. Mais cedo ou mais tarde, porém, impelido por uma ou duas doses e pelo desespero dos tímidos, começa a se exibir. Escolhe a mulher mais bonita, aproxima-se, cumprimenta-a com uma reverência e beija-lhe a mão. Conta-lhe histórias infames sobre si mesmo. Torna-se exuberante; de repente, sem motivo nenhum, ri de prazer, pula e bate os calcanhares.” (p. 25)
: : FICHA TÉCNICA : :
O segredo de Joe Gould
Joseph Mitchell
Trad. Hildegard Feist
Companhia das Letras
1a. edição, 2003
224 páginas