O túnel - Ernesto Sábato
out 30th, 2008 | Por Aline Arroxelas | Seção: CríticasEm busca de livros sobre ciúmes e derivados para uma pesquisa, dei de cara com O túnel, de Ernesto Sábato. E me dei conta do quão deficientemente somos educados, pelo menos no Brasil, acerca da literatura latinoamericana.
Todo estudante secundarista já conhece Dom Casmurro, ou pelo menos já ouviu falar na saga de Capitu e Bentinho; com alguma sorte, fala-se também em Garcia Márquez ou em Pablo Neruda. Mas acho que nas escolas se fala bem mais em Dostoievski do que em Jorge Luis Borges. A boa literatura portenha — resquício talvez da velha rivalidade Brasil x Argentina — parece esquecida.
Pois falemos então dessa novela de Ernesto Sábato, que nasceu em Rojas, província de Buenos Aires, em 1911. Militante da Juventude Comunista e Doutor em física, Sábato chegou a trabalhar no Laboratório Curie, em Paris, antes de largar o mundo das ciências e se dedicar exclusivamente às letras, em meados da década de 40. Em meio a uma crise familiar e pessoal, assistiu à corrida pela ruptura do átomo de urânio: “Pensé que era el comienzo del Apocalipsis”, afirmou certa vez. E pôs-se então a escrever.
O túnel foi lançado em 1948, treze anos antes de Sobre Heróis e Tumbas, considerado a obra prima de Sábato. Mas não é propriamente um livro sobre ciúmes, como me haviam recomendado. É um livro sobre a solidão, sobre essa nossa incapacidade inerente de estendermos uma “ponte” ao outro, para que, a partir desse contato, fiquemos livres de nós mesmos. Uma coisa meio Fernando Pessoa, que termina numa oração pedindo “Senhor, livra-me de mim”.
O livro toma forma, narrado em primeira pessoa, de desabafo. Juan Pablo Castel é um reconhecido pintor que, preso pelo assassinato de Maria Iribarne - crime cuja autoria é confessada já na primeira página - procura reconstruir os fatos e os sentimentos que o levaram ao crime. De início, é possível pensar que Juan Pablo escreve em busca de perdão; mas ele se apressa em esclarecer que busca apenas fazer com que alguém, “ainda que uma só pessoa”, o entenda. A nota trágica, e que dá todo o tom da narrativa que a partir daí se desenrola, é que Pablo matou precisamente a “única pessoa” que o poderia entender, Maria.
Juan Pablo conta então como conheceu Maria, objeto de seu desejo e de sua obsessão, por acaso, em uma de suas exposições. Explica que Maria foi a única pessoa a notar uma pequena cena em um dos quadros: a cena de uma mulher em uma janela, alegoria que logo nos dá pistas sobre a verdade da busca do narrador. E passa a descrever melancolicamente suas fantasias, sua busca por Maria, até, inevitavelmente, o processo de sua degradação por Maria, o que culminou com o crime.
É uma estória de incomunicabilidade, de isolamento, de incapacidade e impotência. Os ciúmes de Juan Pablo — do marido de Maria (cego – outra alegoria do autor), de seu parente, e de todas as outras pessoas, as “sombras” — são somente a tradução em raiva de sua impossibilidade de comunicação. É no seu desgaste, pelas ruas portenhas, que Juan Pablo deixa claro que não somos nunca o todo de nós mesmos.
E Sábato expõe essa solidão tão humana através da imagem memorável de dois túneis (esse túnel da vida que todos percorremos essencialmente sozinhos) que correm paralelos, sem jamais se tocar. O túnel é a estória de um solitário que julgou ter encontrado em uma só pessoa a única possibilidade de intercessão.
Entretanto, ainda que fascinante e obscuro o tema, a impressão final é a de que o livro disse menos do que poderia. Na verdade, ficamos sem saber se Sábato escolheu não adentrar fundo no túnel, e só mostrar a sua entrada, ou se é mesmo Juan Pablo, limitado com suas circunstâncias, que passa pelo corredor sem ver bem as paredes que o cercam. Por vezes suas palavras nos conduzem a caminhos bem mais sombrios do que aquele que o narrador traça.
Mas fica a recomendação. Enquanto isso, continuemos a descobrir essas maravilhosas obras que se aventuram pelos meandros dos sentimentos, desses tão complicados e sutis sentimentos, humanos.
Aline Arroxelas
lido em Mar. de 2005
escrito em 02.04.2005
: : FICHA TÉCNICA : :
O túnel
Ernesto Sábato
Companhia das Letras, 1a. edição, 1999
150 páginas
Ótimo post, obrigada.