Olho Mágico | Elas não sabem de nada
out 27th, 2008 | Por vacatussa | Seção: Olho MágicoElas não sabem de nada
Joana Rozowykwiat
Nananinanão. Larguissaí e vamos embora. Foi assim que me tornei um homem problemático. Aos seis anos de idade. Era domingo, uma antiga loja de brinquedos chamada Piuí. Eu fui embora e ele ficou lá, o Falcon, com olhos de águia, meu melhor amigo.
Olhei ele se distanciando, a vista embaçada, pupila quase afogada, e sentia como se tivessem me tirado um parente, um irmão. Depois aprenderia que as mulheres são assim, como as mães, obcecadas pelo essencial e muito alheias ao supérfluo. Mas as pequenas coisas, as que não estão no ról das imprescindíveis, são as que nos fazem suportar as adversidades.
Então cheguei em casa, uma vítima da incompreensão feminina, menino-solidão. Eu a odiava, e corri para o quarto de brinquedos velhos e inúteis. Nada daquilo me servia mais, já estava grande para aquelas bobagens. Só queria o meu amigo super-poderoso. Morram, morram todos, seus bonecos bobocas. Em alguns minutos eu estava lá, o único sobrevivente do campo de batalha. Entre espumas, plásticos disformes, plumas, mortos.
Esperei um tempo e ninguém veio ver os resultados da guerra. Me esforcei para fazer o maior barulho possível, mas ninguém veio ver se eu estava bem. Nem ela. Muita, muita raiva. Ninguém me amava ali, eu devia fugir. Uma criança infeliz, abandonada. Abri a porta muito devagar, botei a cabeça para fora e não havia nem sombra de gente. Corri desesperadamente até a porta da sala, mas, antes de cruzá-la rumo a um lugar menos cruel, ouvi o choro descontrolado da minha mãe.
Fiquei feliz. Ela me amava, tinha se arrependido de tudo, ia trazer meu amigo para mim, ela ia. Mas ela estava ao telefone, nem me olhava. Estranho, por que ela estava daquele jeito? Mãe, eu tô aqui. Mãããe, o que foi? Largou o telefone desconsolada, me olhou como se quase nem suportasse me ver, mas abraçou-me, forte, muito forte, lembro que mal consegui respirar.
Fui entregue à minha avó, que nunca me paparicou tanto, e em cuja casa pairava um ar pesado e denso. Mais tarde eu descobriria que o meu pai havia morrido. E, mais que nunca, eu precisava do meu amigo, o Falcon, que ela me negou.