Os Sinos da Agonia - Autran Dourado
out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasConfesso que durante o período de paquera – onde só podemos contar com o instinto, dada nossa ignorância e incapacidade de desvendar conteúdos – não me disporia a encarar Os sinos da agonia. Meu instinto anunciava um livro monótono, palavras mortas, incessantes consultas ao dicionário, exigindo o receio criado nos tempos de colégio, quando, com quinze, dezesseis anos, era precocemente obrigado a ler os temíveis clássicos da literatura nacional como A Moreninha (Joaquim Manoel de Macedo) e as enfadonhas descrições de José de Alencar em Lucíola e Senhora.
No entanto, encarei-o. Ainda bem. Mesmo que minha opinião não valha muito, considerando o pouco que li na vida, não tenho receios em afirmar que este seja um dos grandes livros da literatura nacional. É incrível como um livro desta grandiosidade seja praticamente ignorado pelo Brasil.
Através da temática de amores impossíveis, Autran Dourado, recria a Vila Rica no iminente declínio do ciclo do ouro, trazendo informações históricas sobre o peso e crueldade da escravidão, a estupidez da nobreza racista, a corrupção do Estado e ainda, alusões a Inconfidência Mineira.
A mesma história é contada sobre três perspectivas diferentes, o que obviamente proporciona o prazeroso preenchimento dos espaços deixados, revelando a habilidade técnica do autor ao transformar uma cena já conhecida em algo novo e misterioso. Parece que através das palavras, somos galinhas guiadas através de grãos de milho a uma mesma armadilha, pelo mesmo terreiro, mas por caminhos diferentes.
No primeiro momento, quando a história é construída sobre a perspectiva de Januário, através de vozes e recordações guardadas na sua memória, a narrativa exige cautela. Segue ligeira e por isso, muitas vezes precisei parar, pensar como que tinha chegado naquele assunto, e voltar algumas páginas com a curiosidade de descobrir o caminho traçado. É como tentar recompor um sonho, uma conversa com amigos que sai constantemente dos trilhos ou tentar relembrar o caminho de volta após caminhar por uma cidade desconhecida sobre o fascínio da descoberta. As mudanças de assunto são freqüentes e repentinas, sem qualquer aviso, o tempo presente mistura-se com lembranças, com acontecimentos do passado, delírios, sonhos e previsões futuristas.
A partir do segundo capítulo a narrativa parece ser mais fácil. A história segue linear, existem subdivisões de capítulo que servem para o leitor respirar e já se sentir avisado quanto as possíveis mudanças na narrativa. Porém a técnica continua a mesma, só que desta vez, passa-se quase que imperceptível e não há o sentimento de estar perdido. No segundo capítulo, Autran nos dá uma importante pista quanto a sua técnica: “Passado e futuro eram uma só memória, pasto do tempo presente” (p. 171). No terceiro, existe um momento em que, aparentemente, a narrativa tem ares de incoerência, onde, utilizando-se de uma conversa com o mito de Tirésias, o dedo do autor fica explícito, na tentativa de aprofundar e explicar uma vontade de compreensão. Aparentemente.
Em Os sinos da agonia, Autran Dourado construiu uma perfeita rede de proteção que inspira confiança a qualquer trapezista, um impecável sistema de segurança em que as supostas falhas se transformam em qualidade. Usando o artifício da história ser contada através dos burburinhos e fofocas da cidade de Vila Rica, surge a liberdade para a democratização de informações que seriam restritas a apenas um personagem. Por mais de uma vez, Autran avisa “As paredes têm ouvido”.
Thiago Corrêa
lido em Out./Nov. de 2003
escrito em 22.11.2003
: : TRECHO : :
“E começou a recorrer ao jogo das palavras, das frases truncadas e ambíguas, dos subentendidos, às suas sinuosidades e alçapões. Com o meticuloso cuidado de quem monta o delicado engenho de um relógio ou lida com pólvora, dosava cada uma das suas falas, as palavras mais insignificantes. Através delas, debaixo delas, nas suas dobras e reentrâncias, ia dizendo tudo o que guardava no coração” (p. 162)
: : FICHA TÉCNICA : :
Os Sinos da Agonia
Autran Dourado
Rocco, 4a. edição, 1999
332 páginas