Pergunte ao pó - John Fante
out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasSe eu fosse organizado e tivesse meus livros em prateleiras, divididas por ordem alfabética de acordo com o sobrenome do autor, minha prateleira de F’s estaria valorizada com a presença de Pergunte ao pó de John Fante.
Seria impossível pra mim ler Pergunte ao pó sem relacioná-lo a dois livros que li anteriormente: O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger e O capitão saiu para almoçar e os marinheiros tomaram conta do navio de Charles Bukowski.
Os três possuem como característica uma linguagem direta, simples, com passagens que chegam a ser ingênuas, mas destacam-se justamente por conseguirem expressar revolta, inquietude, desenvolver questões complexas a partir de situações corriqueiras. Sobre isto, no prefácio de Pergunte ao pó, Bukowski escreve sobre o livro “O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade” e logo depois confessa “Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda” (p. 06).
As semelhanças não param por aí. A temática deles é praticamente a mesma, assemelhando-se neste ponto, a Memórias do Subsolo de Fiódor Dostoiévski. Os narradores destes livros sofrem do mesmo mal, uma ácida consciência crítica que lhes fazem perceber o sentimento de serem incompatíveis com a sociedade em que vivem e por isso, acabam desembocando na literatura.
No caso de Pergunte ao pó, o personagem é Arturo Bandini, um jovem natural de uma cidadezinha do Colorado, que foi morar em Los Angeles impulsionado pelo sonho de se tornar um escritor famoso.
Morando num quarto de hotel, Bandini vai percebendo que Los Angeles, a cidade ensolarada dos artistas, não é tão charmosa como é divulgado nas revistas. O olhar forasteiro de Bandini, o olhar de quem sofreu com o desprezo por ser pobre e ter o sobrenome terminado numa vogal, constrói uma Los Angeles suja, miserável, uma América estúpida, preconceituosa, hipócrita.
Bandini passa pela transformação de quem sai da casa dos pais, chega a uma cidade grande, querendo se incorporar a ela, desejando ser um dos seus cidadãos, mas percebe a sujeira, o papel de imbecil que ele e tantos outros desenraizados prestaram se iludindo, achando que Los Angeles era um paraíso, fugindo em direção ao sol como se fossem animais.
Thiago Corrêa
lido em Fev. de 2004
escrito em 29.04.2004
: : TRECHO : :
“Olhei para os rostos ao meu redor e sabia que o meu era como o deles. Rostos drenados de sangue, rostos tensos, preocupados, perdidos. Rostos como flores arrancadas de suas raízes e enfiadas num vaso bonito, as cores se esvaindo rapidamente“. (p. 200)
: : FICHA TÉCNICA : :
Pergunte ao pó
John Fante
Trad. Roberto Muggiati
José Olympio, 2a. edição, 2003
206 páginas