Quarto de Hóspedes | As saudades que sentimos delas - Tiago Maranhão
out 27th, 2008 | Por vacatussa | Seção: Quarto de HóspedesAs saudades que sentimos delas
Tiago Maranhão
Tito acordou sozinho, sem saber ao certo onde se encontrava. Havia algo de familiar nas paredes; trazia-lhe algumas recordações o cheiro do quarto, mas não conseguia situá-las nem no tempo nem no espaço. Em que cama de madeira pintada acabava de despertar? Que janelas eram aquelas, cobertas por pesadas cortinas de veludo? Fechou os olhos. Aos poucos, a memória começou a voltar. A viagem, decidida de um momento para o outro, como tudo o que de importante fizera na vida. Era sempre um ato de loucura que mudava o seu destino, sabia-o bem.
Agora lembrava-se de como tudo acontecera. O telefonema para a universidade, cancelando as conferências. A voz perplexa da secretária, a quem não dera explicações. Uma emergência, algo inevitável, dissera. Não sabia quando voltaria. Não sabia sequer se iria voltar. A mala, preparada com rapidez; a mesma velha mala de couro com que anos antes chegara àquele país. A visita à única pessoa de quem lhe custava despedir-se: Maria, sua tia. O táxi para o aeroporto. Depois as nuvens, o céu azul, a voz monótona da aeromoça, a chegada.
As ruas da cidade que em tempo fora a sua e que ainda conhecia tão bem. O seu sotaque materno pela primeira vez ao fim de tanto tempo, ao dar o endereço ao motorista. Não avisara a ninguém. Tito escolhera aquele hotel de propósito, por ser tão perto da casa de Maria. Não a Maria tia. Outra Maria. A sua Maria! Assim podia dormir sabendo que ali ao lado, na mesma rua, estava ela. Depois de tantos anos de separação, de países diferentes, de histórias paralelas.
A mão tremia-lhe quando Tito pegou o telefone para discar o número dela. Voltou a pôr o telefone no gancho, decidiu ir pessoalmente. A empregada que lhe abriu a porta disse que Maria não se encontrava no momento. Depois acrescentou com um sorriso que só na semana seguinte ela regressaria da lua-de-mel.
Ainda bem que não é sempre que a vida imita a arte
Ainda bem que nem sempre a vida imita a arte
“É melhor ter amado e perdido………… do que nunca ter amado!” autor desconhecido