Quarto de Hóspedes | Ninguém em casa - Diogo Monteiro
out 27th, 2008 | Por vacatussa | Seção: Quarto de HóspedesNinguém em casa
Diogo Monteiro
Nasceu para passarinho, mas não lhe vieram as asas prometidas. A princípio, não entendiam a sua forma silenciosa. Mesmo seu choro era mudo - não berrava, os sulcos dos lábios eram a prisão do grito. Na idade em que todos os outros arriscavam palavras como um brinquedo novo, aprendia outros jogos: olhava o céu com a lateral do rosto; piscava rápido quatro ou cinco ansiosas vezes; e movia a cabeça para o outro lado. Seu canto teria sido belo.
As salas de espera, os consultórios médicos - por onde espalhavam-se brinquedos coloridos, testes e jogos de ato e resposta - não conseguiram fazer brotar a fala. Os pais apenas entenderam que naquele pequeno corpo desabitava um menino, quando perceberam a maneira como agitava os braços, em gestos ondulados, como suas mãos se erguiam e desciam empurrando para baixo o ar que teimava em não levitá-lo.
O primeiro momento foi de negação. O segundo, de alarme. Cercaram-no de cuidados. Grades e olhos o vigiavam. Os parentes se revezavam para que a criança não alcançasse o ar externo ao sexto andar onde morava, para que não buscasse o céu que o namorava e terminasse feito calçada.
O terceiro momento foi o costume. O menino - que habitava os cantos, sempre alisando as plumas que não tinha, magro que mal tocava a comida, que nunca respondia um chamado - tornou-se mobília, uma prateleira que sustentava fotos esquecidas.
Foi a mãe, ou o pai, que deixou - quando já abandonava os cinco anos - uma porta aberta. Foi o costume que não o viu ganhar o corredor, a passos indecisos de um bicho que não se entende liberto. Foi um segundo que permitiu que ele encontrasse uma janela escancarada no vão do hall.
O menino agarrou o parapeito com os dedos dos pés e mediu o espaço aberto com os lados da cabeça, que se virava em soluços. Abriu bem os braços. Foi um vizinho que o viu batendo-os forte, testando a resistência do ar. Foram uns centímetros que evitaram que o homem segurasse o corpo fino que saltou para o vazio.
Nunca que ele tocou a calçada.