Revista #2 | Na caixa de sapatos - Thiago Corrêa

out 29th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Revista #2

Na caixa de sapatos
Thiago Corrêa

Sabe aquele brinquedo que você adorava quando criança e hoje está guardado numa caixa de sapato porque você cresceu, foi obrigado a desaprender a brincar, mas que você não teve coragem de passar adiante? Pronto. Ela era assim, um amor que precisei guardar, mas não consegui me desfazer.

Tudo acabou de repente, sem muita explicação. Cada um seguiu sua vida. Me enfurnei no trabalho, jurei que nunca mais iria me apaixonar, retomei minhas amizades, voltei a freqüentar as peladas da terça. Virei um solteiro implacável.

É claro que nem sempre me dava bem, vida de solteiro tem disso, é inconstante. E vazia. Essa história de sair querendo pegar todas acaba sendo frustrante, você nunca fica satisfeito. Foram dois anos nessa putaria, sem me apegar a ninguém. A maioria porque não merecia, algumas porque não deixei.

Mas aí chegou o dia em que meus amigos começaram a noivar. Quando o primeiro resolveu se casar, fiquei me perguntando como é que alguém podia se submeter a isso. Depois aquilo foi ficando normal e comecei a sentir falta de carinho, de ter alguém pra ficar em silêncio.

Passei a tentar algo mais, troquei telefone, fui a cinema, levei pra jantar. Com duas semanas de convívio pegava abuso. Fiquei achando que estava incapacitado pra isso, alguém tinha me estragado.

Já estava me lamentando com um amigo, quando ele falou que uma amiga da amiga da esposa dele era a minha cara, inteligente, bonita, gostava das mesmas coisas. Essas histórias nunca dão certo, mas acabei topando.

Hoje estou aqui, todo empacotado, esperando minha futura esposa no altar. Mesmo assim, ainda penso nela. Sei que algum dia a gente vai se reencontrar, sentar numa mesa, bater um papo, perguntar como está a vida. E depois de algumas cervejas embaladas em lembranças e risadas, um silêncio. Troca de olhares, constrangimento, vergonha, vontades, desejos, explicações, lágrimas. Talvez saia um beijo e tudo finalmente se resolva, talvez o beijo vire arrependimento, os dois se calem e sigam seus caminhos, talvez tudo acabe nas lágrimas por não sabermos mais brincar.

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