Revista #2 | Réquiem da boemia - Mário Lins
out 29th, 2008 | Por Mário Lins | Seção: Revista #2Réquiem da boemia
Mário Lins
Para Luís e Aristides , toda quinta era dia de tomar uma no Bar do Tonhão. Bebiam lá havia tanto tempo que Luís tinha até morrido, mas ainda assim eles continuavam a se encontrar. Aristides estava angustiado:
- Garçom, mais duas doses de uísque. Please.
- Eu parei. Pede só uma.
- Não, as duas são pra mim.
- Pega leve, Aristides.
- Ótimo conselho, pra alguém que morreu de cirrose.
- Pronto, já começou.
- Comecei o quê?
- A implicar comigo porque eu cuido da minha saúde.
- Que saúde? Você tá morto, cacete, não dá pra morrer de cirrose duas vezes.
- Ah, é como dizem: mente sã, corpo são.
- Só que morto não tem corpo. E mente você nunca teve.
- Você tá muito negativo hoje.
- Sério? Tirando o fato de que eu acabo de morrer, não imagino por quê.
- Todo mundo morre, Aristides. Eu mesmo já parti faz tempo.
- Mas não desse jeito.
- Queda no chuveiro é normal.
- Não quando você tá batendo uma.
- Ah, todo mundo bate uma.
- Mas logo na hora da morte é foda.
- Gozou?
- O quê?
- Você gozou?
- Porra, Luís, eu aqui desse jeito e você vem com gozação?
- Isso foi um trocadilho intencional?
- Daqui a pouco Helena me encontra morto lá no banheiro, coberto de sangue e o com o pau na mão.
- Ela supera.
- Que humilhação. Meu casamento vai acabar.
- A morte acaba qualquer casamento, é assim mesmo.
- Não tô falando disso. Eu levei umas fotos da Ciça pro banheiro.
- A irmã dela?
- É. Umas fotos no motel.
- Aquela gostosona?
- Ela mesma.
- Tem uns peitões…
- Do outro mundo.
- Helena vai te matar.
- Eu sei.