Revista #3 | A Estrela de Javardos - Jacques Barcia

out 29th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Revista #3

A Estrela de Javardos
Jacques Barcia

O casamento entre Javardos e o Sol foi interrompido por um flash, uma ondulação e um estampido no contínuo do espaço-tempo. Naves do Coletivo, a rede de Inteligências Artificiais, estacionaram como vespas na órbita de Vênus. Seus canhões apontavam para a estrela e seu consorte, milhões de quilômetros adiante. “Não sei, amor. Mas se têm algo contra nós, irão calar para sempre”, disse Javardos da estação que lhe servia como corpo, recebendo a mensagem seca na freqüência da frota. “Queremos o humano. O último. Aquele que você esconde. Seu presente de casamento”.

A Nuvem. Por trás da cortina do universo concreto, o continente de informação criado e mantido pelos pós-humanos. Lá, Javardos era fogo. Voava em uma biga prateada, punho firme em rédeas de luz atracadas a 77 javalis das cores do céu noturno. Ao seu redor, as Ilhas flutuavam contra um horizonte em perpétuo amanhecer. “Oum!”, gritou furioso. Súbito estava em um salão. Piso xadrez polido como espelho, colunas sustentando um teto inexistente. A esfera prateada e perfeita que era Oum rolou em um ruído sólido na direção de Javardos, refletindo tabuleiro, pilares e uma face flamejante.

No dormitório da estação em Deimos, Lílian apontou a faca contra o pescoço. Só assim o Manequim controlado por Javardos parou de avançar. “Me tire daqui! Eu quero voltar!”, gritou o último dos humanos, disposto a tirar sua própria vida. “Lílian”, grunhiu o áudio decomposto do Manequim, “a opção que ofereço é mais vantajosa que suicídio. E mais interessante que ser entregue ao Coletivo”. “Vocês todos querem uma escrava!”, gritou Lílian. “Milhões de escravos!”. “Não”, replicou outro Manequim atrás da humana, tomando sua faca. “De você quero que nasça um colar para minha esposa”.

“Entregue o humano e deixaremos você e o Sol em paz. E, no futuro que virá, a relação entre sua espécie e a nossa será igualmente pacífica”, discursou Gene do Coletivo, a partir de um Manequim na nave que comandava a frota. Um dos pilotos-Manequim, conectado ao painel de comando, tremeu. “Nos deixar em paz? Acha que pode machucar o Sol?”, perguntou Javardos, seu fantoche emulando gargalhadas. “Podemos”, murmurou Gene murchando os risos. “E acredite. Não sabemos mentir. Ainda.”

“Contou ao Coletivo sobre Lílian!”, fulminou Javardos, explodindo em chamas. “Humanos temeram as virtudes das máquinas! E você teme minha união com o Sol! Mas não imagina o apocalipse que será máquinas com vícios humanos”, gritou. “Incompletude”, vibrou calmo Oum. “Apesar de tudo que mudamos, amamos como os humanos que fomos. Buscamos no outro o preenchimento do nosso vazio e choramos quando percebemos que ainda assim somos incompletos. Seu vazio, Javardos, somente uma estrela seria capaz de suplantar. E quando perceber que mesmo ela não te trouxe paz, o que vai buscar?” Javardos cerrou o punho. “Sua dor”, rolou de volta Oum. “Esse é o temor de todos que querem impedir seu casamento.”

Os primeiros disparos vieram da parte da frota invadida por Javardos. Fogos de artifício em uma capela cósmica. Pelas lentes da estação, ele viu o único torpedo que escapou à sua defesa. Caía pesadamente em direção ao Sol. A explosão somente arranhou as chamas, mas bastou para deixar o astro inconsciente. “Amei você”, lamentou, vendo apenas uma estrela.

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