Revista #3 | Promenade - Aline Arroxelas
out 29th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Revista #3Promenade
Aline Arroxelas
Não havia quase ninguém nas ruas àquela hora: o sol acabara de nascer e ainda se sentia o cheiro da madrugada. As casas, todas fechadas, com suas janelas de vidro que refletiam a cegueira da manhã.
Foi assim que voltei para casa. Foi assim que voltamos. Eu, porque precisava chegar, dormir e fazer as malas; ele, porque quis me acompanhar até a porta, mesmo sabendo que seria só um passeio depois de uma longa madrugada em festa.
Por entre as pedrinhas do chão havia água da chuva caída à noite, e nós continuávamos a conversa sobre nossas respectivas aventuras adolescentes, como roubar o carro do pai para ir à praia ou pedir a colaboração de três amigos diferentes para justificar uma noite dormida fora de casa. Éramos crianças, éramos inocentes aos olhos do mundo. Eu perguntei sobre sonhos, ele respondeu que ainda cozinhava os dele dentro de um vulcão. Eu ri. Ele perguntou sobre música, respondi que gostava das mesmas que todo mundo.
Quanto às cores, pensávamos que um passo era vermelho, o outro amarelado, e o terceiro um deserto. E havia o cinema europeu e o americano… ambos nos deram pretexto para vários passos, esses cada vez mais lentos, como o cinema oriental. Nunca minha casa pareceu tão perto, nem o caminho tão sem curvas. Era uma estrada aberta por entre o que partilhávamos e o que deixaríamos.
Passamos por um gato cinzento que se espreguiçava, esticando-se a partir das patas dianteiras como se nos desprezasse. Ele lembrou do poema de Neruda, e eu, animada, terminei de recitá-lo, do jeito que conseguia lembrar. Pensamos então em Quintana, que também gostava de gatos. E partimos para Drummond, Pessoa e Bandeira, até chegarmos a Hilda. Éramos amadores, éramos únicos. Ouvi sobre a lua enlutada, sobre as muralhas de marfim, sobre as manhãs de vidro. Também isso devo a ele, pensei.
A casa que já apontava na esquina. Eu, que sentia já não ter mais casa, porque seguia abandonando portos, um após o outro. Ele, que parecia não lembrar que eu não estaria ali amanhã, nem depois, nem depois. Nem dali a alguns passos. Dois a menos, um a menos: o portão.
— Preciso entrar. Nem terminei de empacotar as coisas ainda.
— Boa viagem então. Vê se manda notícias de lá, certo?
Mas eu aprenderia a desaparecer. E hoje percebo, como se finalmente entendesse um sonho meio esquecido, que ali não passeávamos pelas ruas, pela frente das casas e pelos gatos que acordavam, mas por nós mesmos, por uma estrada jamais e sempre percorrida, um passeio que nunca terminou, e que nunca nos levou a lugar algum.