Trainspotting - Irvine Welsh
By Thiago Corrêa | outubro 29th, 2008 | Category: Críticas |Leith: a Cidade de Deus escocesa
É sempre assim. Toda vez que leio um livro após já ter assistido sua adaptação cinematográfica, fico tentando reconstituir os passos do roteirista. É como se eu pudesse entrar na sua mente e descobrir de onde vieram aquelas imagens, o que ficou de fora e o que virou o quê. A leitura vira um jogo de completar.
Ao ler Trainspotting, do escocês Irvine Welsh, que vem a reboque do sucesso da sua cultuada adaptação para o cinema, não tive como deixar pensar no caso de Cidade de Deus, livro de Paulo Lins e filme de Fernando Meireles. Em ambos, suas adaptações não só tratam de problemas sociais relacionados às drogas, como também deram uma organizada nos universos literários de origem, diminuindo o número de personagens e condensando-os numa única história.
Nenhum dos dois livros possui uma unidade, tanto de estilo quanto de narrativa. São vários narradores, cenas autônomas contando pequenos episódios que dão em becos-sem-saída (bons, mas não necessariamente essenciais), resultando num mosaico disforme e tumultuado. A história, que justifica os livros na categoria romance e não de contos, é construída através fragmentos que não se completam, mas são somados. Assim, as obras não se prendem a visão dos personagens, e sim a de um grupo social com algo em comum.
Publicado em 1993, Trainspotting conta a história de um grupo de jovens viciados em heroína que perambulam pelos pubs de Leith, subúrbio de Edimburgo. A temática é a mesma do filme, uma aventura junkie dedicada a um público jovem e cabeça, fãs de Quentin Tarantino, Radiohead e literatura beatnik.
Mark Renton, Sick Boy, Spud, Tommy, Cisne e Begbie são delinqüentes consumidores do mundo pop, que preferem viver aplicando pequenos golpes e furtos a trabalharem em subempregos, como atendente de McDonald’s. Sim, eles possuem justificativas para ser o que são. Apesar do conteúdo sociológico, com tensões sociais, crises de identidade e sexualidade, o que se sobressai é mesmo a relação de Renton e sua turma com a heroína. A descrição de sensações, porém, é pouco explorada, salvo os dolorosos momentos de abstinência. A tradução em palavras dos devaneios está mais para uma justificativa do uso das drogas, dada a insignificância da vida, do que pelo prazer proporcionado por elas.
Através de uma linguagem repleta de gírias, ironias e referências pop, que busca a fala característica dos jovens de Edimburgo, Irvine Welsh consegue preservar a coletividade do ambiente. No processo de adaptação, os roteiristas conseguiram a proeza de amarrar os fragmentos, podando arestas, deixando os filmes redondos, livres para rolar até o fim, mas que para isso, precisou sacrificar a pulsação de Leith, as vozes, preocupações e formas de amizades de uma geração de renegados presentes no livro.
Thiago Corrêa
lido em Mai./Jun. de 2005
escrito em 22.06.2005
: : TRECHO : :
“– Não sei muito bem Tommy, não sei mesmo. É como se fizesse as coisas ficarem mais reais pra gente. A vida é entediante e fútil. A gente começa com altas expectativas. Depois descarta todas elas. Percebemos que vamos todos morrer sem descobrir as grandes respostas. (…) Basicamente, a gente vive uma vida curta e decepcionante; depois a gente morre. A gente enche a vida de merda, de coisas como carreiras e relacionamentos, pra ficar livres da idéia de que tudo é inútil. A heroína é uma droga honesta, porque arranca fora essas ilusões. Com a heroína, quando cê se sente mal, ela intensifica a merda que já está ali. É a única droga realmente honesta. Não altera a sua consciência. Só te dá um soco e uma sensação de bem estar. Depois disso, cê vê a desgraça do mundo como ela é, e cê não consegue mais se anestesiar contra ela.” (p. 97)
: : FICHA TÉCNICA : :
Trainspotting
Irvine Welsh
Trad. Galera & Pellizzari
Rocco, 1a. edição, 2004
350 páginas
Um filme muito bom…queria muito ler o livro também