Trilogia Suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez

out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Trilogia Suja de Havana é o típico livro que só deveria ser vendido em sebo. Vendê-lo numa mega-store de shopping center é tão descabido como vender champanhe no carnaval de Olinda. Isso porque o livro é sujo, violento, repulsivo e deprimente. É poético.

Pedro Juan Gutiérrez sabe como despertar aversão numa pessoa. Segue o mesmo estilo de John Fante e Charles Bukowski, mas com um peso de rabugice tremendamente maior. Não tem o aspecto de aventura junkie de Fante ou Bukowski, é muito pior, é verdadeiro, fede a mijo. Fante e Bukowski parecem light, higiênicos, sexo com camisinha perto de Pedro Juan.

A diferença talvez venha do ambiente: uma realidade brutal e repugnante bem parecida com a apresentada por Paulo Lins em Cidade de Deus e Rubem Fonseca no conto Feliz Ano Novo. É a mistura do estilo dos junkies americanos com a miséria social da América Latina.

Vivendo na Cuba dos anos 90, durante o boicote econômico imposto pelos Estados Unidos, Pedro Juan descreve a miséria, a fome e a falência do sistema público do país através do seu pequeno universo. É a partir do seu dia-a-dia e dos acontecimentos que o cercam, que ele aproveita para tecer comentários, denunciando de maneira indireta toda a degradação humana da população cubana.

Escrito em forma de contos, segue uma seqüência não-linear, mas que se completam, mantendo uma certa ordem, construindo uma visão ampla e particular de Cuba. Os personagens aparecem, depois somem, mas isso não se torna um problema, Pedro Juan conta sua história em episódios, de maneira simples e com frases impactantes merecedoras de grifo.

Em meio a tudo isso, Pedro Juan ainda consegue demonstrar sua sensibilidade. Escrito num período de reavaliação, ele expõe todos os conflitos e angústias, crises e desilusões de alguém que chegou aos quarenta anos e decidiu mudar de vida. Estraçalhado por amores do passado, ele vai aprendendo a conviver com a solidão, se endurecendo, tentando sobreviver sem luxo, à base de sexo, rum e maconha.

Thiago Corrêa
lido em Dez./Jan. de 2005
escrito em 25.01.2005

: : TRECHO : :
“Eu estava relaxado. Com muito sexo, e muito tranqüilo de espírito. Nada atormentado. Bom, tormentos sempre há. Mas agora consegui afastá-los um pouco. Deixei-os a uma certa distância no futuro. É uma boa maneira de torná-los indistintos e não escutá-los. Eu tinha uma mulher em casa. Havia recuperado alguns quilos. E vivia. Sem nada para fazer. Sobreviver, creio que se chama isso. Deixar-se deslizar e não esperar nada mais. Muito fácil.” (p. 128)

: : FICHA TÉCNICA : :
Trilogia Suja de Havana
Pedro Juan Gutiérrez
Trad. José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 1a. edição
358 páginas

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4 comentários
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  1. Olá! Legal a resenha de “Trilogia Suja de HAvana”! Leia a que em fiz em : http://memoriasdeumperdedor.blogspot.com/2009/02/trilogia-suja-de-havana-pedro-juan.html

  2. como assim, vendido em sebos?
    vc acha que lojas de livros só devem vender obras com florzinhas para travestis enrustidos?

    não entendi…

    este livro é maravilhoso, sai do mundo judeu, babaca e rico. um tapa na cara dos idiotas.

  3. eu li o livro e adorei a dissertação aqui exposta, mas concordo com o giovani, não entendi porque vender esse livro somente em sebos..?!
    o livro é bastante impactante, somente para aqueles que tem “estômago forte”, pois seu realismo brutal foge completamente da literatura romantica e comum que estamos acostumados.

  4. Alôooo, minha gente!

    É óbvio que o crítico não está sugerindo que o livro seja vendido apenas em sebos, ora.
    Que espécie de leitores são vocês que não conseguem discernir uma sugestão objetiva de uma alegoria textual. Esta imagem apenas ilustra e reforça sua opinião sobre o universo tratado na obra e suas principais características estilísticas.

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