Xadrez, truco e outras guerras - José Roberto Torero

out 28th, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

No prefácio, o autor expõe que Xadrez, truco e outras guerras tem como objetivo ser uma obra detestável, capaz de provocar a ira dos leitores. Mas se há algo que as páginas seguintes não conseguem, é despertar a ira. O que se tem é uma leitura agradável, com capítulos pequenos, parágrafos curtos, fluência, diálogos, uma história dinâmica, bem humorada e com conteúdo crítico.

Apesar da falta de referências, que vai desde a nomeação dos personagens aos países envolvidos, é notório que a história se passa durante a Guerra do Paraguai. A despretensão histórica do autor lhe permite tratar deste controverso episódio sem se afundar nas burocracias de quem tem a obrigação de falar e comprovar a verdade. Livre disso, Torero concentra suas críticas, potencializa em ironias e vai direto ao ponto, revela os bastidores, o jogo de interesses que existe em qualquer guerra, mas são renegados pela História oficial.

Contudo, nem mesmo através desta podridão, a ira aparece. A causa disto pode ser o distanciamento entre a narração e os personagens, a ponto do narrador se intrometer, dirigir-se ao leitor, revelar informações do próprio ato de narrar.

O que no início, é interessante, parece ser uma conquista, uma inovação de linguagem, facilitando a exposição das idéias. O problema é que a técnica chama mais atenção para si do que para a história e isso acaba se refletindo no leitor, prejudicando sua interação com a obra.

Neste ponto, Xadrez, truco e outras guerras estreita suas relações com A Casa dos Budas ditosos de João Ubaldo Ribeiro, tendo como agravante o fato do seu narrador não ser um personagem.

Esse distanciamento é intrigante para um livro contemporâneo, pois cada vez mais, a literatura preconiza que em histórias narradas na terceira pessoa, o narrador deve ser imperceptível, sem intromissões na história e sem expressar opiniões. Quando o fizer, que faça através de algum personagem.

A distância talvez possa ser explicada quando pensamos em manipulação. A narração utilizada serve como alusão ao poder do Rei, que se envolve numa guerra, ordenando tropas, mas parece estar movimentando peças numa partida de xadrez. Da mesma forma que o narrador manipula seus personagens, impedindo que estes adquiram vida própria.

Outra coisa que me deixa receoso com relação ao livro, é o emprego das técnicas de diálogo. São usados o diálogo tradicional, indicado por travessões e o diálogo sem marcações, no estilo de Saramago. Nada contra a diversificação, desde que haja motivos pra isso, o que não vem ao caso em Xadrez, truco e outras guerras.

Thiago Corrêa
lido em Dez. de 2003
escrito em 12.05.2004

: : TRECHO : :
“Estava, finalmente, tomado pela ira, uma ira que enlouquece, que faz apertar os dentes até que quase se quebrem, uma ira sem controle, uma ira quase boa de se sentir. Pelos seus olhos saíam lágrimas, um tanto por ódio e outro tanto pela fumaça que cobria tudo. Um inimigo veio até ele e foi morto com um golpe certeiro no baço. Mas o Soldado já não se contentava em matar e então despedaçou o miserável em tantas partes quanto era possível. Não há maior prazer do que satisfazer a ira.” (pp. 132-133)

: : FICHA TÉCNICA : :
Xadrez, truco e outras guerras
José Roberto Torero
Coleção Plenos Pecados - Ira
Objetiva, 1a. edição, 1998
183 páginas

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2 comentários
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  1. [...] coordenada pelo advogado Antônio Campos e terá como debatedores José Roberto Torero (autor de Xadrez, truco e outras guerras), Denise Paraná, Maria Dora Mourão e o onipresente Raimundo Carrero (O amor não tem bons [...]

  2. O LIVRO É MUITO BOM ,DE UMA SIMPLICIDADE TOCANTE
    AMEI AL EITURA

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