As boas mulheres da China - Xinran
nov 1st, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasMelodrama no ar
Pelo prólogo, já é possível perceber a afetação melodramática que contamina as páginas de As boas mulheres da China. Nele, a jornalista Xinran conta como desafiou um assaltante em Londres para salvar o manuscrito do seu livro com histórias que refletem o sentimento das chinesas. Uma luta que a autora encarou de frente, assumindo um programa de rádio sobre o universo feminino num país conservador em processo de modernização.
Talvez por isso, o livro soe como as crônicas lidas por Ana Maia Braga durante as manhãs. O tom de auto-ajuda brega está presente em cada um dos relatos repassados pela escritora. Ela faz uma compilação das histórias que ouviu de mulheres sexualmente reprimidas, fruto da rigidez cultural de uma sociedade supersticiosa controlada por um governo autoritário, que viram na voz de Xinran a oportunidade de diminuírem seus sofrimentos.
Assim ficamos conhecendo casos como o de Hongxue que passou a adoecer propositalmente para ficar internada e fugir dos abusos sexuais do pai; de Taohong, que virou lésbica após ser estuprada por sete homens; de Jingyi, que passou 45 anos de sua vida esperando reencontrar o seu namorado da época de universidade; e de Shilin, filha de perseguidos políticos que, por não suportar a pressão das autoridades, acabou com distúrbios mentais.
A autora costura esses relatos com a sua própria história. Coloca-se como personagem, mostra sua condição de mulher, mãe e jornalista na tentativa de se entender melhor e ajudar seu público a descobrir a feminilidade. O problema é que, com isso, o livro fica muito concentrado no umbigo da autora.
Xinran explica demais como chegou até as entrevistadas, revela suas emoções e angústias ao ouvi-las, fazendo com que as histórias delas percam força, sendo relegadas ao segundo plano. Dessa forma, o livro se volta mais para as memórias e bastidores de uma jornalista que soube aproveitar o momento de abertura política, do que para os problemas das mulheres da China. Talvez como uma forma de amenizar a falta de conhecimento de causa da autora, ou medo dela se expor, já que em nenhum momento ela abre espaço para falar da relação com o pai do seu filho.
Apesar de todas essas deficiências, o livro tem o lado positivo de desvendar um pouco da situação da China, um país cheio de contradições, com cicatrizes como o terremoto de 1976 (que mesmo tendo resultado na morte de 300 mil pessoas, só foi percebido depois das autoridades locais serem avisadas pela imprensa estrangeira) e comunidades miseráveis como a da colina dos Gritos, onde as meninas precisam revezar roupas com as irmãs para sair de casa.
Em meio aos litros de lágrimas da autora e das personagens, temos acesso a informações sobre o processo político passado pelo país (desde a tomada de poder de Mao Tsé-Tung à revolução cultural causada pelas divergências com a União Soviética) e as implicações que essas mudanças causaram à população feminina.
Thiago Corrêa
lido em Set./Out. de 2007
escrito em 12.12.2007
: : TRECHO : :
“O tempo as trouxe para o presente, mas a cada minuto, a cada segundo que passou, elas lutaram com as cenas que a morte lhes deixou; e a cada dia e a cada noite arcam com o fardo das lembranças dolorosas de terem perdido os filhos. Não é uma dor que a vontade de um ser humano possa eliminar: o menor objeto doméstico – uma agulha com linha, um par de pauzinhos numa tigela – pode remetê-las aos rostos sorridentes e às vozes de almas mortas. Mas elas têm que continuar vivendo, têm que sair de suas recordações e retornar à realidade. É só agora que entendo por que havia a imagem de um olho em cada aposento do orfanato – aquele olho grande, transbordando de lágrimas, aquele olho com “o futuro” escrito na pupila” (p. 95).
: : FICHA TÉCNICA : :
As boas mulheres da China: vozes ocultas
Xinran
Trad. do inglês: Manoel Paulo Ferreira
Companhia das Letras
1a. edição, 2007
253 páginas
absurdo desconsiderar este livro. só podia ser homem….
Muito bom esse comentário sobre o livro.
O enfoque do livro é a carreira e vida de Xinran mesclado com os relatos das mulheres chinesas. Por isso ela fala tanto de sua vida pessoal no livro.
Também achei o livro “com potencial”, potencial esse que a autora não soube aproveitar ao máximo, as histórias parecem ter sido feitas sob medida para emocionar, as vezes chega a ser “programa da Márcia” e passa longe de adotar alguma personalidade, na verdade até a última página o livro não se decide se é uma história da autora, intercalada pelas chinesas maltratadas, ou de chinesas maltratadas, intercaladas pela história da autora. Porém vale como relato histórico de uma China misteriosa. Interessante o fato de ela não ter falado do pai do filho dela mesmo hein.
Não concordo com a crítica. Nada demais ela não comentar sobre o pai do filho dela. Ela deixa claro que não deseja falar sobre sua vida pessoal. Ela fala sobre em apenas 1 cap. porque vai introduzir a história de outra mulher. O livro me pareceu que falava mais da revolução cultural que aconteceu, pq este marcou todas as vidas que estão naquele livro. As histórias estavam costuradas nele, os sofrimentos (nada melodramáticos!) das mulheres que viviam reprimidas e desqualificadas naquele país. Fala de uma cultura que o ocidente, em sua maioria, ainda desconhece. E só por isso já é super válida a leitura. Mas tem muito mais ali. Tem uma outra chinesa, que também foi influenciada pela revolução cultural ( e suas barbaridades), descobrindo como as chinesas viviam/viveram, se sensibilizando com estas descobertas e passando-os para os leitores.
Livro “pesado” mas de muita sensibilidade feminina.