Harry Potter e as relíquias da morte - J. K. Rowling
nov 1st, 2008 | Por Aline Arroxelas | Seção: CríticasO último dever de casa de Harry Potter
Harry Potter e as relíquias da morte (Harry Potter and the Deathly Hallows, Bloomsbury, 607 páginas) foi anunciado como o último livro da saga Harry Potter. É o final que todos os milhões de leitores da série esperavam… e temiam. Primeiro porque nos últimos dias tem sido praticamente impossível fugir de notícias sobre o livro, e jornais do mundo inteiro foram rápidos ao revelar, antes mesmo do lançamento mundial, o destino do herói e dos outros personagens. Depois porque não há como negar um certo sentimento de nostalgia pelo fim da série, e os fãs entusiastas especulam um possível (será mesmo?) retorno de Harry Potter, a despeito da negativa reiterada de sua autora.
É compreensível a relutância em deixar a estória de lado depois de dez anos. Entretanto, encaremos os fatos: J.K. Rowling não precisa de outros Harry Potters. Não só porque, sendo a primeira escritora bilionária do mundo, não precisa ganhar mais dinheiro com novos livros, mas principalmente porque este sétimo volume fecha uma obra completa, que contém suas próprias referências e se costurou por uma década. Não caberia mais.
O livro é uma grande despedida dos leitores, e não dá pra negar o sentimento de perda e de abandono que isso traz. É um retorno sofrido ao início do círculo, um grand finale onde pontas soltas se amarram e contas são devidamente (por assim dizer) acertadas. Suas mais de 600 páginas trazem a certeza de que tudo aquilo já tinha sido traçado desde que Harry recebeu a primeira visita de Hagrid, no seu décimo primeiro aniversário.
E não é uma obra para crianças, alto lá! É um livro sombrio, violento, quase que impiedoso, não importa o conteúdo de seus capítulos finais. Harry Potter, que sempre teve que lidar com a morte em seu círculo mais íntimo, passa a perceber que morrer não é o pior, não é o grande inimigo a ser combatido. No mundo adulto a que ele agora pertence, é o desespero de sentir sozinho, e a culpa, que vestem a máscara de grandes vilões. O seu destino, assim como a revelação da verdade sobre os outros personagens, é a confirmação dessa descoberta. Assiste-se ao amadurecimento do personagem, assim como da escritora.
O leitor que leu os seis primeiros volumes certamente não quer nenhum indicativo malicioso sobre o destino de Harry Potter. Quer descobrir com ele, o que, sem dúvida, foi o propósito da autora em sua política de segredo. Acreditem: vale a pena. Vale a pena não ler o epílogo antes, vale a pena não pular páginas pra chegar logo no final, vale a pena até mesmo chorar. Afinal de contas, foi uma jornada! E um privilégio, ter participado da primeira grande série do século XXI. Daqui a uns anos, quando nossos filhos descobrirem esse bruxinho marcado por uma cicatriz na testa, poderemos sorrir satisfeitos: eles lerão um longo e eletrizante conto de fadas, e terão o gostinho de aprender que crescer é um saco, mas tem suas compensações.
Aline Arroxelas
lido em Jul. de 2007
escrito em 23.07.2007
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