O amor não tem bons sentimentos - Raimundo Carrero
nov 1st, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasO amor em espiral
Jogue uma pedra na água e observe as ondas que se formarão ao redor de onde ela afundou. Do epicentro, pequenos círculos de ondas seguem aumentando de diâmetro. Uma após a outra. Ciclos e mais ciclos de ondas formados por apenas uma única pedra. A imagem não existe no livro O amor não tem bons sentimentos, mas ajuda a entender o método utilizado por Raimundo Carrero para construir esse seu último romance.
Ao invés de uma pedra, ele usa um corpo. No rio. Boiando. Morto. É o corpo de Biba, irmã de Mateus, o narrador do livro. Com esse ponto de partida, Carrero expande os horizontes de sua história. Através da mente fértil e perturbada de Matheus, as ondas se formam. Ele cria explicações, elabora teorias da conspiração, mistura lembranças de infância.
Entre as recordações dos seus banhos quando criança com tia Guilhermina, das visitas silenciosas à sua mãe Dolores no presídio e das noites tocando sax nos cabarés, Matheus sempre retorna ao marco zero da narrativa e tenta entender como o corpo de Biba foi parar no rio. Ele segue por um caminho, volta e reconta os mesmos fatos – Biba, nua, morta, no rio.
Mas a cada tentativa, Mateus cria uma nova versão para os mesmos fatos. A estrutura do romance é uma espiral, onde a cada volta o diâmetro aumenta, abordando uma seqüência pré-estabelecida de assuntos. É a mesma técnica utilizada por Carrero para construir seu romance anterior, Ao redor do escorpião… uma tarântula?.
As variantes de O amor não tem bons sentimentos surgem como camadas sobrepostas, que ora se complementam, ora se contradizem. O que pode ser entendido como o conflito mental do narrador diante da morte da irmã, uma estratégia para confundir os leitores quanto a sua participação no crime e/ou até mesmo uma referência metalingüística do processo criativo de construção da história, já que ao final do livro fica difícil saber se os fatos contados por Matheus realmente existiram, podendo, inclusive, tudo não passar de uma simples invenção.
O narrador se apresenta como uma fonte não confiável, tanto que sua personalidade dúbia é sugerida pela mudança de grafia do seu nome – Mateus/Matheus. Ele é uma espécie de mistura de dois grandes personagens do cinema. Em alguns momentos, quando Mateus pensa que está sendo controlado por pensamentos de outras pessoas, sua paranóia lembra a de Norman Bates, do clássico Psicose. Em outros, lembra o estudante louco Francis, da obra-prima do expressionismo alemão dirigida por Robert Wiene O Gabinete do Dr. Caligari, pelos seus desajustes interpretativos. Na comparação a ambos os personagens, fica evidente o distúrbio mental de Matheus, conseqüência da sua conturbada relação familiar cheia de relações incestuosas com tia Guilhermina, Dolores e Biba.
Apesar da maleabilidade de Mateus, o personagem é sólido. Firme em suas posições incoerentes, mesmo que dois parágrafos depois ele se contradiga. Essa ambigüidade cai como uma luva para a técnica da espiral. As incoerências da mente do narrador ampliam as possibilidades da história, potencializadas pelo cuidado do autor com as palavras e sinais gráficos. Assim, Carrero explora os tons surreais da imaginação do narrador e constrói magníficas cenas como a de quando Matheus descobre que tem mãe e quando simula o suicídio do pai com um guarda-chuva. O texto é repleto de imagens, belas, fortes e carregadas de grande teor dramático, despertando a curiosidade de vê-las encenadas no teatro ou cinema.
Há, no entanto, um problema. A liberdade conferida pelas contradições de Mateus é tanta que em certos momentos Carrero se perde. Na parte final do livro, os devaneios do narrador, na busca de explicações pela morte de Biba e em se decidir o que fazer, são tão complexos que beiram o abstrato, deixando de contribuir para a história e servindo apenas como uma experiência estética em busca dos limites da racionalidade lingüística, assemelhando-se a uma lombra chata de alguém que consumiu drogas alucinógenas.
Já quando a trama se concentra em fatos consolidados, a narrativa cresce. É como se, com o tempo, o narrador fosse apurando sua capacidade de domínio da linguagem, daí a força das recordações em relação à fragilidade das hipóteses conspiratórias do presente. Umas das causas desse desequilíbrio é justamente devido à presença de uma fantástica galeria de personagens que permeiam a memória de Matheus, como tia Guilhermina (mulher virgem de meia idade que sonha ser cantora de cabaré), Biba (que lembra a Lolita de Nabokov), Dolores (com seu mistério de silêncio) e Jeremias e Ísis (fundadores da seita Os Soldados da Pátria por Cristo).
Thiago Corrêa
lido em Ago./Set. de 2007
escrito em 06.10.2007
: : TRECHO : :
“Não me lamentava, não me emocionava, não chorava porque não sentia nada. Não significa que eu não sentisse a morte de Biba, será que ela estava morta mesmo? Sentir eu sentia, garanto, sentia sim, e muito, um sentir que não se manifestava, não se revelava, não se mostrava, um sentir inútil. Na alma e no corpo. Apesar do vento e das luzes, a lembrança do sangue que se derramava, o sangue rajava as nuvens, o horizonte rasgado, a manhã. O choro avançava na garganta, tinha subido no peito, tentava me surpreender. Fui eu quem não deixei ele chegar aos olhos.” (p. 21).
: : FICHA TÉCNICA : :
O amor não tem bons sentimentos
Raimundo Carrero
Iluminuras
1a. edição, 2007
191 páginas
[...] Gerusa Leal, Valmir Jordão, Cida Pedrosa e Raimundo Carrero, que doou o rascunho do romance O amor não tem bons sentimentos. Os lances iniciais serão de um real e o valor arrecadado servirá para a organização de outra [...]
[...] com a publicação de Maçã Agreste (1989) e continuado com Somos pedras que se consomem (1995) e O amor não tem bons sentimentos [...]
[...] as semelhanças param por aí. Na edição, publicada pela Brinque-Book, o autor de O amor não tem bons sentimentos vira o coronel Nonato Carrero, que vive na Fazenda Bela Vista de uma cidade do Norte do país, [...]