O dia Mastroianni - João Paulo Cuenca
nov 1st, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasO superficial camuflado em ternos italianos
Com atrativos como a bela capa, a assinatura de um dos expoentes da nova geração de escritores, personagens estranhos, metalinguagem, intertextos e ironia; O dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, reúne elementos essenciais para qualquer obra contemporânea de qualidade. Mas fica nisso, não passa de uma promessa. Seus ingredientes narrativos e questionamentos pós-modernos parecem estar ali apenas para cumprir requisitos e não por serem necessários à trama. Isso faz com que eles apareçam mais do que deviam, feito andaimes numa obra incompleta.
Como uma metáfora da história sobre aparências contada em suas páginas, o livro se mostra oco. Sai do bom argumento de dois amigos que se vestem a caráter para um dia inspirado em Marcello Mastroianni, vagando por bares, restaurantes, casas de jogos e festas, mas não chega a lugar algum. Falta mensagem, unidade e, principalmente, alma. O que se passa é apenas uma sucessão de fatos, diálogos vazios, mudanças de perspectiva e experimentações lingüísticas.
A impressão é que a leitura só pode ser feita à distância, como se estivéssemos observando a trajetória de Pedro Cassavas e Tomás Anselmo da janela de um carro, sem a possibilidade de nos aprofundarmos em cenas, personagens e seus sentimentos. Ao longo do dia, eles se encontram com a doce Maria para alguns drinks e se deparam com tipos estranhos como Giulietta, o mordomo Johann, o escritor Esgar Mxyzptlk e suas ajudantes, que junto com as descrições dos ambientes lembram o universo onírico de Sonhos de Bunker Hill, de John Fante.
Assistimos à andança dos dois jovens vagabundos bem nascidos por lugares inusitados, em meio a faíscas amorosas e divagações sobre o rumo de sua geração. A história deles vem intercalada por sessões de diálogos entre um interlocutor desconhecido (Deus? Um crítico? Um leitor?) e Cassavas sobre suas opções narrativas.
Talvez por isso a história não se prenda a nada. Esvai-se como nuvem, apesar de algumas passagens onde as tentativas de Cuenca em escrever de uma forma inovadora deixam de ser apenas experimentações, como o uso de maiúsculas para expressar superioridade feito nos chats, a narração da chegada de Anselmo para o encontro com Cassavas no início do livro e as descrições de imagens construídas por um ângulo diferente.
Esses momentos, porém, não salvam O dia Mastroianni, que mais parece um exercício literário de Cuenca, tamanha a diversidade de elementos usados sem fundamentações. O resultado é um livro confuso, com pretensões de ser uma aventura junkie e ao mesmo tempo um meta-romance cabeçóide, mas que acaba a meio caminho disso tudo.
Thiago Corrêa
lido em Dez. de 2007
escrito em 03.01.2008
: : TRECHO : :
“Aos dândis precoces, escritores sem livros, músicos sem discos, cineastas sem filmes com conversávamos por citações de romances inexistentes, flanando sob pontes e mesas e botecos como pândegos muito sólidos, lordes sem um tostão nos bolsos, trocando os dias pelas noites e as noites por coisa alguma! Bebamos à nossa perpétua disponibilidade para vernissages inúteis, bocas-livres sem convite! Brindemos ao nosso futuro e passado, a enredar fiapos de vida dedicados ao culto do ócio, de nós mesmos e de paixões viróticas: nossa doce e irreparável adolescência.” (p. 23).
: : FICHA TÉCNICA : :
O dia Mastroianni
João Paulo Cuenca
Agir
1a. edição, 2007
210 páginas
[...] ainda pode aumentar. O Filho Eterno está na final da Copa de Literatura, disputando com O Dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca. Bom, ainda não li o livro de Tezza, mas pela sua trajetória, pelo [...]