O segundo tempo - Michel Laub

nov 1st, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Jogo da vida

Não é difícil ouvir teorias sobre o poder do futebol. Em época de Copa do Mundo, uma simples bolha no pé de um craque ganha mais importância na mídia do que o aumento de impostos ou denúncias de corrupção. Se a seleção vai bem, o Brasil vira um paraíso; se o time perde, serve de motivo para a criação de uma CPI. O futebol é um oráculo, define os rumos do país e marca fases de nossas vidas. Ciente disso, o escritor Michel Laub usa, em O Segundo Tempo, a semi-final do campeonato brasileiro de 1989 entre Internacional e Grêmio como pano de fundo para falar sobre o drama de um menino de quinze anos que assiste à sua família desmoronar.

Narrado pelo então garoto, vinte anos mais velho, ele conta que na época o desempenho do seu time já não lhe servia como uma bolha capaz de isolá-lo dos problemas, mas era a maneira que encontrava para proteger o irmão mais novo, Bruno, das brigas dos pais. O trauma pela perda da inocência – quando tinha os mesmos onze anos do seu irmão, ao encontrar a mãe no chão, após ter tomado um frasco de pílulas – fez com que ele assumisse para Bruno o papel de pai, cada vez mais ausente. Assim, numa tentativa de suprir essa carência, passou a dividir com o irmão as alegrias que tivera anos antes com o pai, quando este ainda se interessava por futebol.

Mas as mudanças em sua vida não se restringiram aos cuidados do irmão. Como filho mais velho, capaz de entender o mundo dos adultos, virou o confidente dos pais, sendo bombardeado com frustrações e chantagens emocionais de ambos os lados. Suportou tudo – conheceu a amante do pai, viu a falência do mercado da família e como a mãe usava sua depressão para impedir o divórcio – e, quando percebeu que já não podia impedir a derrocada da família, resolve fugir, começar sua vida de adulto do zero. Antes, como uma despedida, decidiu dar ao irmão um domingo inesquecível, que viria com a vitória do Grêmio sobre o Inter.

A história segue de acordo com os lances do Gre-Nal do Século, como ficou conhecido o clássico de 1989. Com o cuidado e a delicadeza de quem visita o passado, o narrador alterna os sentimentos e as angústias do adolescente que estava prestes a tomar uma grande decisão com as visões do adulto que se tornou. Em meio a descrições do jogo, ele vai costurando as lembranças não-lineares que lhe surgem com análises e comentários do presente. É como se o narrador já tivesse lido o livro e, durante a segunda leitura, fizesse anotações sobre o que aconteceu depois do jogo, aprofundando assuntos como a doença da mãe e recheando o futebol com saudosismo.

Nesse ponto, Laub lembra um pouco a desilusão de Nick Hornby em algumas passagens de Febre de Bola e de Luis Fernando Verissimo em A eterna privação do zagueiro absoluto quando percebem a importância que deram a algo como o futebol. A ironia saudosista do narrador de Laub em relação ao esporte é o reconhecimento do fascínio que ele pode exercer sobre os indivíduos e, ao mesmo tempo, da sua fraqueza por ter sujeitado o destino a uma bola.

Thiago Corrêa
lido em Ago. de 2007
escrito em 24.08.2007

: : TRECHO : :
“Eu sabia que a semana era como um rito, nós teríamos de passar por ela. Eu ficava pensando como seria dali para a frente, para mim faltavam poucos anos para conseguir alguma autonomia, com sorte uma faculdade e um emprego de meio turno, mas Bruno ainda tinha muito tempo. A quinta série não é nada, a sexta série não é nada, são muitas etapas ainda para que você perceba que o resto também não é nada.” (pp. 22-23).

: : FICHA TÉCNICA : :
O segundo tempo
Michel Laub
Companhia das Letras
1a. edição, 2006
112 páginas

: : LEIA TAMBÉM : :
A eterna privação do zagueiro absoluto - Luis Fernando Verissimo

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2 comentários
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  1. [...] tema que já faz parte da obra do autor. Em seu último livro, O segundo tempo, Laub também investe no drama familiar gerado por crises conjugais e suas consequências sobre os [...]

  2. AÊÊÊÊ ACHEI ENFIM A PORRA DO RESUMO
    AGORA EU VO PODE PASSA DE ANOOOOOOO
    UHUUUUUUUU

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