Órfãos do Eldorado - Milton Hatoum

nov 1st, 2008 | Por Aline Arroxelas | Seção: Críticas

Saudades de um lugar que nunca existiu

Milton Hatoum é, sem sombra de dúvida, um dos mais talentosos escritores brasileiros da atualidade. Um dado ajuda a entender o impacto desse manauense na literatura nacional: seus três livros até agora lançados, todos eles, foram vencedores do prestigiado Prêmio Jabuti. Órfãos do Eldorado é seu quarto livro publicado.

A novela continua as obras anteriores no sentido de que desvenda a vida, a história e os modos da região Norte, um pedaço do país desconhecido dos próprios brasileiros. É ali, num cenário rodeado de água por todos os lados, que se desenrola a vida de Arminto Cordovil, ao qual somente pode ser acrescido o epíteto de “filho de Amando Cordovil”. Perdido entre a exigência de seguir os negócios da família e os prazeres da quase irrestrita liberdade, Arminto usa os espaços de sua vida vazia para contar lendas e mitos amazônicos, contos de botos que engravidam virgens e mulheres que largam o mundo para viver numa cidade encantada, no fundo do rio. E a narrativa funde essas instâncias: a real, onde Arminto luta contra a figura do pai, que o subjuga em todos os sentidos, onde ele desenvolve sua relação ambígua com Florita, mulher que o criou, onde ele escuta conselhos do advogado Estiliano; e aquela outra, quase que sobrenatural, onde ele se perde na obsessão por uma órfã misteriosa.

Comparado a Cinzas do Norte ou a Dois Irmãos, obras anteriores de Hatoum, impressionantes por sua delicadeza, Órfãos do Eldorado parece diminuído. Talvez pelo formato bem mais conciso, que não permitiu ao autor desenvolver toda a sua habitual sutileza. O resultado é que livro não convence o quanto poderia, e não emociona. Bem escrito, mas sem alma, apóia-se na  nostalgia que permeia o olhar de Hatoum sobre sua região, sobre as lembranças de um tempo/lugar muito peculiar.

Talvez porque o personagem principal não chegue a criar empatia, o elemento mais fundamental da história seja a Água. É ela que fornece modo de vida à família Cordovil, que permite a fusão dos imigrantes estrangeiros e dos índios, é na água que Arminto deposita histórias de infância, esperanças e desassossegos de amor. Tudo sempre ocorre tendo a água por testemunha. Mas a água é fugidia, assim como as chances que Arminto deixa passar. Pode ter sido essa a chance que a obra deixou passar: a de unir a fluidez natural, mansa, das letras de Hatoum com sua capacidade de dialogar, partindo de um microcosmo, com os sentimentos mais universais.

: : TRECHO: :
“Inúteis, por quê?
Porque, se fores embora, não vais encontrar outra cidade para viver. Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti. Vais perambular pelas mesmas ruas até voltares para cá. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. E agora é tarde demais, nenhum barco vai te levar para outro lugar. Não há outro lugar.”

: : FICHA TÉCNICA : :
Órfãos do Eldorado
Milton Hatoum
Companhia das Letras
1a. edição, 2008
107 páginas

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Um comentário
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  1. Aline, percebe-se que o seu conhecimento em relação a literatura é bastante limitado, pois o quarto livro de Milton Hatoum em nada deixa a desejar em relação aos livros publicados anteriormente. A sua afirmação de que pelo fato do formato do livro ser mais consiso, não permitiu o autor desenvolver a sua “habitual sutileza” é muito suspeita, pois, não se pode medir um texto pela sua extensão, ou seja, quantidade nada tem a ver com qualidade.

    Minha opnião pessoal é que o livro Orfãos do Eldorado, não somente não fica a desejar em relação aos outros livros do Milton, como também os supera.

    Bjs

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