Samba Esquema Noise - André Gamma
nov 1st, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasBola fora
Foram muitos os fatores que me levaram a ler Samba Esquema Noise, escrito por André Gamma. A curiosidade em torno da proposta da editora Mojo Books de lançar livros inspirados em discos, minha afinidade com o álbum da Mundo Livre S/A, a expectativa de ver o Recife de hoje numa obra de ficção, o projeto gráfico limpo e competente da Mojo e o fato da editora disponibilizar seu download sem cobrar nenhum tostão. Tudo isso contribuiu de alguma forma, mas o que mais pesou para que eu chegasse ao fim do livro foi o seu tamanho. Não fossem as suas 31 páginas e a possibilidade de terminá-lo em menos de duas horas, ele seria abandonado na metade.
Prometendo uma história pensada por inteiro, estruturada em três atos – Samba, Esquema e Noise –, Gamma até começa bem sua empreitada. Logo de cara, explica que se trata de um relato gravado em fita cassete por um amigo do autor. Apesar da estratégia já ter sido usada recentemente por João Ubaldo Ribeiro em A Casa dos Budas Ditosos e Luis Fernando Verissimo em A Décima Segunda Noite, ela até ganha novos significados por se tratar de um livro inspirado num disco. Soa como uma brincadeira do autor, criando a imagem de um escritor entrando no estúdio para escrever um livro.
O problema é que, ao contrário de João Ubaldo e Verissimo, Gamma desperdiça o recurso da oralidade. O que poderia ser um relato com a naturalidade de uma conversa, acaba se transformando em uma redação de aluno colegial dividido entre as aulas de português e a possibilidade de escrever sobre sexo, drogas e rock n’roll. Resultado: um ex-office boy fala feito um advogado burocrata (“pagar os débitos da empresa”, “barrou-me na porta giratória”) e um traficante do Coque como uma criança que acabou de aprender a conjugar verbos (“Serei o dono da boca”).
Até mesmo nas cenas de sexo, típicas de um adolescente virgem que inventa uma história para impressionar os amigos, fica evidente o pudor de Gamma. Sem conseguir se libertar das amarras gramaticais, o autor apela para o uso indiscriminado das exclamações. Em tudo ele coloca exclamação, como que para evidenciar o espírito raivoso do narrador, mesmo quando a frase mostra-se inofensiva.
Outro vacilo é na relação com o disco. Gamma comete a incoerência de dizer que na mesma época em que o disco foi lançado (1994), o narrador já escrevia críticas de música para um site, quando a internet só viria a aparecer por aqui um ano depois. Tirando esse tropeço, a ligação com o álbum está bem amarrada. Samba Esquema Noise é colocada como a trilha sonora da história vivida pelo ex-office boy que lhe deixou numa cadeira de rodas, morando escondido numa cidade do interior.
Novas costuras surgem enquanto o narrador conta como isso aconteceu, desde quando conheceu Wânia (namorada de Bira, um traficante do Coque), até levar o tiro que lhe deixou paraplégico. Nesse meio tempo, ele cantarola Musa da Ilha Grande (“eu não vou sair daqui sem ver ela sair da água, não vou!”) e Livre Iniciativa (“trabalho, trabalho novo, trabalho, trabalho novo”), faz referências a músicas como A Bola do Jogo e Rios (Smart Drugs), Pontes e Overdrives e aos personagens do disco: o rapaz do bonezinho preto e, claro, Wânia, a mulher com W maiúsculo.
Ao que tudo indica, Gamma esteve com a bola do jogo, de frente para o gol. Conhecia o disco, sabia o que queria para sua história de três atos, mas na hora de colocar o recheio acabou chutando para fora. Ao menos o livro me fez escutar novamente Samba Esquema Noise.
Thiago Corrêa
lido em Mai. de 2007
escrito em 28.05.2007
: : TRECHO : :
“Mas, agora, de nada adianta mais… O carnaval, o Alto da Sé, em Olinda, as lembranças… O vinil velho está lá encostado, junto a outros… Samba esquema noise, a trilha sonora de minha jornada clandestina. O motivo de minha fuga e exílio foi mulher. Ah! Se dizem que ela fodeu Adão, também me deixou em uma cadeira de rodas…” (p. 06).
: : FICHA TÉCNICA : :
Samba Esquema Noise
André Gamma
Mojo Books
1a. edição, 2007
31 páginas
: : LEIA TAMBÉM : :
A Casa dos Budas Ditosos - João Ubaldo Ribeiro
A Décima Segunda Noite - Luis Fernando Verissimo
: : LINKS : :
Mojo Books