Toda nudez será castigada - Nelson Rodrigues
nov 1st, 2008 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasFalar de Nelson Rodrigues é falar do Brasil. Se esse é o país do futebol, das pornô-chanchadas, safadezas e putarias, muito se deve a ele. Como cronista esportivo, contribuiu para a rivalidade do Fla-Flu, clássico entre Flamengo e o Fluminense. Como dramaturgo, além de ser responsável pelo marco inicial do teatro moderno com a peça Vestido de Noiva, ajudou a quebrar o tabu do sexo, tornando o assunto mais presente na vida dos brasileiros. Sua obra é sobre o escândalo, o confronto entre os mundos do puritanismo religioso e das traições, do homossexualismo e do incesto. Com Toda Nudez Será Castigada não é diferente.
Encenada pela primeira vez em 1965, a peça conta a tragédia de Herculano. Após a morte da esposa, até então sua única mulher, ele encontra-se num estado de depressão, pensando inclusive em se matar. Uma presa fácil para o seu irmão Patrício, que culpa Herculano pela sua falência. Prevendo que a castidade do irmão seria sua fraqueza, Patrício o estimula a conhecer Geni, uma prostituta a quem ele deve uma quantia. Assim, ele poderia se vingar de Herculano – colocando-o entre o desejo sexual e a promessa que fez ao filho, Serginho, de que nunca mais teria outra mulher na vida – e, ao mesmo tempo, garantir seu sustento pago pelo irmão.
Apesar dos diálogos obscenos travados por Herculano e Geni, de um estupro sofrido na cadeia, das traições em família e da revelação final de tons homossexuais, o efeito corrosivo da peça de Nelson Rodrigues mostra-se ainda mais virulento quando é apresentado o comportamento conservador e moralista de Serginho e das suas três tias. Os quatro nutrem um fanatismo que beira o doentio em relação à esposa falecida de Herculano, a ponto de Serginho visitar o túmulo da mãe e sonhar com a sua presença todos os dias. São passagens tão estranhas que, perto delas, os hábitos extravagantes de Geni tornam-se aceitáveis. O toque de mestre de Nelson, porém, está no fato dele não restringir a crítica à religião, mas mostrar que ela é um eufemismo, um discurso, usado para suavizar a hipocrisia da sociedade de aparências.
Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2007
escrito em 09.06.2007
: : TRECHO : :
“Patrício – (exaltando-se) Eu sou o cínico da família. E os cínicos enxergam o óbvio. A salvação de Herculano é mulher, sexo! (triunfante) Para mim, não há mais óbvio ululante!” (p. 16).
: : FICHA TÉCNICA : :
Toda nudez será castigada
Nelson Rodrigues
Nova Fronteira
1a. edição, 2005
125 páginas