A Chave de Casa - Tatiana Salem Levy
mar 6th, 2009 | Por Aline Arroxelas | Seção: CríticasNa zona cinzenta das intersecções
Eu me remexo sempre que perguntam a origem de meu sobrenome incomum. Não tenho certeza, é esta a verdade. Meu avô dizia ser espanhol, corruptela ibérica da francesa La Rochelle, e me contava uma estória lindíssima de que o Arroxelas pertencia a um padre, que largara a batina para se casar com uma portuguesa de sobrenome Galvão. Adorava as estórias de meu avô. Talvez esta seja só mais uma delas. Ou talvez eu precise voltar às origens para me sentir confortável ao soletrar meu nome ao preencher formulários.
Pois chegou-me às mãos, meio que por acaso, o romance de estréia de uma autora que me era desconhecida: Tatiana Salem Levy. Muito prazer em conhecê-la.
Seu A Chave de Casa me fez repensar uma pergunta que geralmente escuto por aí, e para a qual nunca dei importância, por acreditar inócua: existe mesmo uma tal “literatura feminina”? Tatiana Salem Levy me insinua que sim, para minha surpresa. Pode ser mesmo que só uma alma que reúna traços particularmente femininos consiga traduzir certas inquetações e outras ambiguidades.
No entanto, a literatura feminina de Tatiana Salem Levy não é nada mulherzinha. É de mulher mesmo, passada há muito da adolescência, já calejada e acariciada em ciclos. Você se sente cúmpica dela, mesmo sem querer ser sua amiga. Mistura com impressionante leveza percepções sobre a morte, sobre o amor, sobre o passado, conduzindo-nos por caminhos que, não contraditórios, são sempre complementares.
Partindo de uma busca pelo passado familiar - impulsionada pela chave da casa do avô, na Turquia - a narrativa se desdobra em linhas que ora se cruzam, ora se mostram paralelas, num mosaico de episódios, de vidas e de lugares que convergem para a resposta da pergunta fundamental da autora: quem sou eu?
Neta de judeus turcos, nascida em Portugal e brasileira desde a tenra infância, a autora/personagem se vê em muitos espelhos, sem se sentir à vontade em nenhum deles. Judia, turca, brasileira, mulher, filha, amante: rótulos indefinidos que, nas mãos de uma escritora talentosa, viram um retrato que, de tão íntimo, torna-se quase que universal.
Talvez todos nós brasileiros, imigrantes, emigrantes, miscigenados, formados a partir de uma árvore genealógica sempre obscura e incompleta, no mínimo duvidosa, sejamos movidos pela mesma estranheza que permeia o livro. Vez ou outra imaginamos e percorremos becos em busca de nossas raízes, etiquetas e passaportes, na esperança de atar laços que nos permitam um certo reconhecimento. Perguntamos sobre a vida de nossos pais, colecionamos relíquias familiares, olhamos álbuns de fotografias antigas que mostram como um parente distante tem nossa boca, nossos olhos, nosso sorriso. Andamos sempre à procura de uma casa cuja fechadura aceite nossa chave.
Se a tal “literatura feminina” se debruça sobre essas inquetações com a força de A Chave de Casa, então esse é mais um motivo para acreditá-la como classificação inútil. Afinal de contas, esse sempre foi o pano de fundo de toda a boa literatura. Por outro lado, nem tudo o que se convenciona chamar de ‘literatura feminina” é tão interessante assim. É preciso que o leitor se aproprie da obra, que a tome como sua história, para que ela funcione. Tatiana Salem Levy conseguiu que eu apalpasse meu bolso para me certificar que minha chave ainda está lá.
Aline Arroxelas
: : FICHA TÉCNICA : :
A Chave de Casa
Tatiana Salem Levy
Record
1a. edição, 2007
208 páginas
[...] O filho eterno. Na categoria autor estreante, que em 2008 ficara com Tatiana Salem Levy por A chave de casa, o premiado foi Altair Martins por A parede no escuro. Tags: Prêmio São Paulo de Literatura, [...]
[...] Publicado em 2007, A chave de casa venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante e foi finalista do Jabuti de 2008. Na trama de traços biográficos, a protagonista, neta de judeus da Turquia e filha de comunistas brasileiros, reconstrói as origens de sua família através de uma narrativa que combina elementos ficcionais e memórias. Essa ausência de fronteiras foi tema da mesa de Tatiana na última Flip e de uma entrevista à Folha de S. Paulo, onde também se pode ler trechos de seu livro. Numa leitura interessante, o Vacatussa reflete sobre a feminilidade de seu texto. [...]
[...] Recomendo o livro no seu mais alto grau. Isso sim é literatura feminina. [...]