Galiléia - Ronaldo Correia de Brito

mar 30th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

As vísceras do Sertão mítico

Um livro sobre o Sertão. Galiléia, romance de Ronaldo Correia de Brito, é um ensaio ficcional sobre essa região que se instalou com tons míticos em nosso imaginário. Nele, o autor usa como pretexto a viagem de três homens (Adonias, Ismael e Davi) ao Sertão dos Inhamuns, no Ceará, para desconstruir essa imagem de um lugar isolado do mundo, preso a um tempo onde os homens adquiriam a aparência rústica da luta pela sobrevivência diária, sob a sombra da vocação para a tragédia.

Autor da peça Baile do Menino Deus e dos livros de contos Faca e Livro dos Homens, Brito estréia no romance, desfrutando a vastidão espacial do gênero como se estivesse vagando no vazio do Sertão. Uma transição textual que se revela num trabalho meticuloso, de construção em cima de longos diálogos, no emaranhado de tramas e em experimentações na linguagem, como o recurso visual de simular a desatenção de Adonias com espaços em branco isolando palavras e em cortes não-lineares.

Dessa forma, Brito explora a travessia à Galiléia - fazenda onde os três primos cresceram e o avô Raimundo Caetano agoniza seus últimos suspiros - como a linha condutora da narrativa. A dubiedade do caráter das personagens e dos sentimentos de reencontro/despedida serve de metáfora à crise de identidade dos sertanejos. À medida que a caminhonete de Ismael avança pela estrada, o escritor promove o encontro de um Sertão conectado à internet, de mulheres emancipas pelo trabalho na confecção de redes e de motocicletas substituindo cavalos; com os cadáveres da memória, desenterrando a origem da região, baseada em teorias migratórias e de miscigenação presentes em nossa formação cultural.

Uma ligação que se dá em sutilezas. Nas primeiras páginas, citações à banda inglesa Radiohead e ao cantor Damien Rice. Referências a laptops, ao Google, bandas de forró estilizado, que logo são substituídas pelo peso da mitologia grega (Minotauro, Elektra, Édipo), das teorias de Freud e do existencialismo, corrente filosófica que tem importância particular no livro. Se o filósofo romeno Emil Cioran é citado, O Estrangeiro, de Albert Camus, aparece disfarçado no sentimento de inadequação dos viajantes e numa cena de violência de Galiléia, que remete ao assassinato da obra camusiana.

Aos poucos, lembranças que levaram os primos a abandonarem a Galiléia são desencavadas na poeira do abandono em que se encontra a região, sugerido na imagem que ilustra a capa do livro. O romance é um diálogo com os mortos, um reencontro com os fantasmas, personificados em Raimundo Caetano, último guardião das angústias sertanejas adormecidas na memória da família Rego Castro.

Thiago Corrêa
lido em Nov. de 2008
escrito em 18.11.2008

: : TRECHO : :
“Foi como se o condenassem à insônia perpétua, ao inferno de ver as noites passarem, olhando os caibros e ripas do telhado. As pernas paralíticas não embalavam o corpo, o corpo não adormecia a mente, a mente trabalhava sem trégua, tecia rolos de fio de pensamentos, como os teares em que se fabricavam as redes. Enredado nas lembranças, sem ter mais ninguém a quem abrir o coração, porque era o último da sua espécie, Raimundo Caetano sentiu-se condenado à morte sem direito à apelação.” (pp. 58-59).

: : FICHA TÉCNICA : :
Galiléia
Ronaldo Correia de Brito
Alfaguara
1a. edição, 2008
236 páginas

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5 comentários
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  1. Li Galiléia. Extreou bem no romance o Ronaldo. Mas ainda o prefiro como contista. Faca é seu grande livro. Primeira vez no site. Estou gostando. Abraço de Garanhuns

  2. Conheço os contos de Ronaldo, mas ainda não li este romance; este artigo me desperta o desejo de ler Galileia (nova grafia, sem acento), inclusive pela necessidade de conhecer melhor o imaginário da história de uma região de onde migrei sem nela ter nascido: meus pais e os seis irmãos mais velhos nasceram nos Inhamuns.

  3. [...] de Brito, venceu a 2ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura com seu romance de estreia Galiléia. Além do feito de desbancar autores do porte de Milton Hatoum (três vezes campeão do Jabuti) e [...]

  4. [...] lugar. Ao voltar à Galiléia, são condenados a um destino trágico. Conheça mais sobre o livro nessa resenha do Vaca Tussa e leia o primeiro capítulo, assim como o de A parede no escuro, no blog do Prosa e [...]

  5. [...] os livros Faca (2003), Livro dos Homens (2005) e Galiléia (2009), o escritor Ronaldo Correia de Brito mostrou que suas histórias surgem da mesma maneira que [...]

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