O homem dos sonhos - Tatiana Maciel

mar 23rd, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Um Big Brother dos sonhos

O sonho é a matéria-prima da literatura, mesmo quando a intenção é dar um tapa na cara dos leitores e manter seus olhos abertos para o que está acontecendo no mundo real. Em seu livro de estréia O homem dos sonhos, a pernambucana Tatiana Maciel explora esse universo do inconsciente por uma perspectiva diferente, periférica. Ela conta a trajetória de insônia de F#23107, personagem que atua como figurante nos sonhos dos outros.

O livro começa bem, com um prólogo de lamber os dedos, onde a autora faz a apresentação do personagem, brincando com os termos para explicar as condições a que F#23107 será submetido nos próximos capítulos. A cada divisão, um novo sonho freqüentado pelo figurante. Começa num bosque frio, depois se vê num navio pirata, na arquibancada de um jogo de futebol, numa festa de adolescentes, num duelo contra um dragão.

A escritora usa essas possibilidades para mudar o contorno da história – cenário, figurino, personagens e, principalmente, o clima. Algo que Tatiana Maciel faz não apenas com descrições, ela tenta transpor essas mudanças por meio da linguagem. Assim, no estádio de futebol, ela parodia a narração esportiva do rádio, com texto corrido, cheio de vírgulas e poucos pontos, além das ênfases (gooool!!!!) e dos gritos da torcida (olé).

Com a liberdade permitida pelo universo dos sonhos, a autora aproveita para procurar novos caminhos, potencializando o nível de experimentação. Destaque para o capítulo Os sonhos siameses, onde a narrativa é trabalhada em duas colunas paralelas, que dividem a mesma página, como uma forma de retratar o momento em que F#23107 se vê em dois sonhos simultaneamente.

Mas as possibilidades abertas pelos sonhos também trazem seus riscos. Em alguns capítulos como O sonho dos jogos que não acabam e O sonho do fermento a narrativa derrapa para o non sense gratuito, como se a única intenção fosse apenas criar imagens inusitadas. Diferente, por exemplo, do que acontece em O sonho úmido, quando a autora usa um ambiente líquido como metáfora da angústia febril sofrida pela dona do sonho.

Agora o maior problema do livro não é nem os devaneios. Já no primeiro capítulo, a narrativa desanda, revelando um problema estrutural que permeia toda a obra. Talvez por influência de suas experiências no teatro, Tatiana Maciel deixa que a narradora do livro se intrometa demais nas histórias, faz considerações explícitas, comenta, dá explicações soltas, com jeito de auto-ajuda.

O resultado é o distanciamento entre o leitor e as personagens. Ao optar por uma narradora parcial, exterior à quase todas as histórias, a idéia de que cada sonho tem um universo próprio enfraquece. Os capítulos terminam não sendo vistos nem por F#23107, nem pelos sonhadores; mas por uma espécie de Grande Irmão, a que tudo vê e a tudo dá pitaco. A narração parece ainda verde, confusa, sem identidade. Um indício de que o talento de Tatiana Maciel, diversas vezes exuberante no livro, ainda precisa ser lapidado.

Thiago Corrêa
lido em Ago. de 2008
escrito em 06.09.2008

: : TRECHO : :
“Às vezes, ao menos, os sonhadores o convocam na imaginação a tempo de presenciar brados comemorativos, ou restos de monstros ao pé de espadas enlameadas de sangue escuro, ou ainda comentários adolescentes sobre o beijo há pouco roubado. Às vezes, no entanto, ele passa tão ao longe que não vê nem mesmo isso.” (p. 12).

: : FICHA TÉCNICA : :
O homem dos sonhos
Tatiana Maciel
Agir
1a. edição, 2007
141 páginas

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