Rasif: mar que arrebenta - Marcelino Freire
mar 6th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasO trunfo do estranhamento
No Brasil, há quem defenda que a realidade social do país deva ser retratada pela arte do jeito que ela é, sem interferências, como um documento, registro fotográfico, na tentativa de não embelezar o feio e maquiar as mazelas. Uma estratégia que, se bem utilizada, consegue catalisar as injustiças da realidade e, por meio de uma linguagem crua, transformá-las em revolta, criando cenários assustadores como o apresentado por Rubem Fonseca, no conto Feliz Ano Novo.
Mas essa tendência está longe de ser unanimidade. Nessa outra seara, o nome que se apresenta com maior contundência é o do pernambucano Marcelino Freire, vencedor do Prêmio Jabuti 2006, na categoria de melhor livro de contos por Contos Negreiros. Em sua obra mais recente, Rasif: mar que arrebenta, o autor repete a receita dos seus trabalhos anteriores, abordando a temática dos problemas sociais por um viés estético, que une rimas à violência, miséria e preconceito.
Aqui, porém, o estilo de Freire já parece ter se consolidado. Sua poética não se mostra tão incômoda como em Angu de Sangue, embora ainda soe estranha quando esquecemos a figura do autor e nos concentramos apenas nas suas histórias. O que, com o passar do tempo, torna-se cada vez mais difícil. Hoje já não pegamos um de seus livros atrás de bons contos, mas porque se tratam de histórias de Marcelino Freire, com seu jeito tão marcante de combinar palavras quanto a força com que ele lê seus escritos.
Algo que pode ser encontrado em todos os contos de Rasif, mas salta aos olhos do leitor com mais evidência em Para Iemanjá, Amor Cristão e O futuro que me espera. Esses textos são quase discursos retóricos do próprio autor, onde quase não existe enredo, assemelhando-se à estrutura das crônicas. Nos outros contos, no entanto, as características marcelinianas quase passam desapercebidas, ofuscadas pelo peso de suas denúncias sociais, como no caso da criança que pede um revólver ao Papai Noel (Maracabul), da outra que planeja o assassinato do bom velhinho (Meu último Natal) e da mulher que se nega a ir a uma passeata pela paz (Da paz).
Mas, se nesse quarto livro Freire consegue transformar seu estilo em trunfo, ele ainda mostra que não sabe os limites de sua arma. O deslize nos contos O meu homem-bomba e We Speak English é gritante, parecendo que eles entraram no livro apenas para aumentar a quantidade de páginas, fazendo um malabarismo de palavras esvaziado, sem alma, sem dizer coisa alguma.
Thiago Corrêa
lido em Set. de 2008
escrito em 27.09.2008
: : TRECHO : :
“Leco ficou esperando. O olho grudado no alto. Apertando o pedaço de paralelepípedo. Também trouxe uma faca, caso fosse preciso. Ou se o velho gordo revidasse. E gritasse. Eu disse para o Leco. Papai Noel não grita. Faz só ho, ho, ho. Leco riu, meio apressado. E me disse que Papai Noel era rico. Eu disse que não era. Leco disse que era. Papai Noel era dono de uma fábrica. E vinha de longe. De um país cheio de neve. País pobre não tem neve. E Papai Noel era gordo. Muito gordo. E sorria. Era um homem muito rico, sim. Por isso fazia ho.” (p. 45, conto: Meu último Natal).
: : FICHA TÉCNICA : :
Rasif: mar que arrebenta
Marcelino Freire
Ilustrações: Manu Maltez
Record
1a. edição, 2008
123 páginas