Leite derramado - Chico Buarque

abr 27th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

A decadência em suas várias faces

Com tudo o que já fez na música, Chico Buarque se transformou em rei Midas. Basta ele aparecer nos créditos de um disco, peça, documentário ou livro para hastearem o seu nome como bandeira de credibilidade na tentativa de impulsionar vendas e abrir espaços na mídia. Em se tratando de Leite derramado, o quarto romance de Chico Buarque, esse selo de qualidade vem banhado a ouro, com comparações a nada menos que Dom Casmurro, clássico de Machado de Assis.

Uma referência que se pode até engolir, já que ambas as obras trazem narrativas em primeira pessoa, contadas por personagens corroídos pelo ciúme e pela suspeita de traição. E só. Ir além disso é forçar a barra, depositar em Leite derramado um peso que ele não suporta. Tiradas as esperanças de milagre capaz de sacolejar a literatura, o livro tem lá seu valor. Chico sabe contar uma história, constrói uma narrativa fluida, recheada de boas imagens e reflexões sobre o envelhecimento, o amor e a perda.

Ao contrário de Budapeste, esse novo romance não é escrito, mas baseado nos relatos orais de Eulálio Montenegro d’Assumpção, que, do alto dos 100 anos, remonta a sua vida enquanto agoniza na cama de um hospital público. A exemplo de livros como A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, e A décima segunda noite, de Luis Fernando Verissimo, a história também assume os cacoetes verborrágicos do narrador, com interferências do momento em que elas são contadas, estrutura não-linear e lapsos de memória.

As informações chegam fragmentadas. Em meio a descrições sobre o trajeto na maca para uma tomografia, reclamações sobre o futebol na televisão ou delírios dos enfermos; o narrador nos revela detalhes da oscilante trajetória dos Assumpção, família tradicional que veio de Portugal junto com a corte de Dom João VI. Neto de um abolicionista e filho de um influente senador, Eulálio narra a decadência do seu clã com o crash da bolsa de Nova Iorque nos anos 30.

Mudanças essas que, embora sejam trabalhadas no âmbito familiar, servem como paralelo para retratar as transformações políticas, econômicas, sociais e arquitetônicas do Rio de Janeiro, com menções ao ranço da escravidão, da ditadura, especulação imobiliária e tráfico de drogas. Mas tudo isso é apenas pano de fundo para ilustrar o relacionamento do narrador com Matilde, sua esposa. Quando ela o abandona, Eulálio cai em desgraça, vê seu patrimônio ruir pouco a pouco, até ir morar de favor nos fundos de uma igreja evangélica.

Apesar da inegável qualidade literária de momentos que se propõem a discutir os sentimentos humanos a partir da fragilidade do narrador, Chico Buarque escorrega outra vez para o mesmo tom caricato que havia enfraquecido Budapeste. Ao contrário de autores como Luis Fernando Verissimo que conseguem utilizar o humor a favor de suas histórias, em Leite derramado ele impede que o tema pesado da decadência (financeira, social, mental, amorosa) se consolide.

O efeito é inverso, soa forçado, esvazia o discurso. A impressão que fica é a de que Chico ainda está afinando o tom da sua literatura, indeciso entre o papel de intelectual de Construção e a leveza infantil de Piruetas. Talento ele tem, é só uma questão de tempo para ele calibrar as palavras e chegar ao meio termo de Meu caro amigo, para, aí sim, ser comparado ao Bruxo do Cosme Velho.

Thiago Corrêa
lido em Abr. de 2009
escrito em 26.04.2009

: : TRECHO : :
“Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas da faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mas as reminiscências dessa gente toda, até o tempo de Napoleão. Veja só, neste momento olho para você, que toda noite está comigo tão amorosa, e fico até sem graça de perguntar seu nome de novo. Em compensação, recordo cada fio da barba do meu avô, que só conheci de um retrato a óleo.” (pp. 14-15).

: : FICHA TÉCNICA : :
Leite derramado
Chico Buarque
Companhia das Letras
1a. edição, 2009
195 páginas

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