Vale Tudo - Nelson Motta
abr 6th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasO superlativo Tim Maia
Apostar no sucesso da biografia de Sebastião Rodrigues Maia é quase tão certo quanto a soma de dois e dois dar quatro. Até porque a vida desse carioca nascido na Tijuca, mais conhecido como Tim Maia, sempre foi levada no superlativo, com confusões, polêmicas, drogas e amores. Mais que isso, a trajetória de Tim Maia, escrita pelo jornalista e produtor musical Nelson Motta, confunde-se com a história da própria música brasileira.
Partindo do privilégio de ter convivido com o biografado, numa amizade que se iniciou com o convite para o ainda desconhecido Tim participar do disco Em pleno verão de Elis Regina, Motta revela as peculiaridades do estilo Maia de se viver. Retoma os tempos de Tião Marmiteiro (apelido recebido por conta das entregas feitas para o pai) na Tijuca, as noites no bar Divino (freqüentado pelos anônimos Jorge Ben, Erasmo e Roberto Carlos) e os anos de delinqüência nos Estados Unidos, onde Tim entra em contato com o funk e o soul.
Depois de ser deportado, o cantor volta ao Brasil e percebe que os ventos da música brasileira estavam soprando em outra direção. A bossa nova – que outrora incentivara Tim a ir para o exterior, por não ter conseguido se inserir no meio dos jovens de classe média da Zona Sul carioca – já não estava tão forte. O espaço fora preenchido pela Jovem Guarda, com seus antigos companheiros de Divino despontando como estrelas nacionais.
O livro resgata a fome de Tim Maia em busca de reconhecimento, com tentativas de chegar ao estrelato (que acabaram frustradas porque os técnicos de som da época não souberam gravar o seu ritmo funkeado), até o estouro do compacto Primavera, em 1969. O relato passa pela fase Racional e faz o registro de um dos momentos mais importantes da música negra brasileira – o movimento Black Rio nos anos 70, que culminou com os discos Tim Maia (1976), Maria Fumaça, da Black Rio, África Brasil, de Jorge Ben, e Refavela, de Gilberto Gil.
Como não poderia deixar de ser, em se tratando de Tim Maia, a biografia está recheada de causos. Nas quase 400 páginas do livro, estão escritas divertidas loucuras regadas a triatlons de uísque, maconha e cocaína que deram tons de lenda ao síndico do Brasil. Como, por exemplo, quando voltou de Londres e resolveu alegrar os departamentos mais caretas da Phillips distribuindo ácidos na contabilidade e no jurídico. Uma lógica caótica que ele implantou na administração da sua gravadora Seroma e no agendamento de shows, que acabou lhe afundando numa bola de neve de dívidas e processos na Justiça.
Nelson Motta faz toda essa viagem com uma escrita fluida, como numa conversa de bar. O que é um grande mérito, mas que nesse livro fica uma sensação de vazio, diferente, por exemplo, dos livros de Fernando Morais, repletos de detalhes, depoimentos e relatos. Com pouco disso, fica a impressão que Vale Tudo é um livro generalizador, que cumpre seu papel de resgate do mito Tim Maia, porém deixa a desejar como documento histórico. Bem fundamentado apenas no registro dos álbuns lançados pelo cantor, onde o autor faz uma revisão crítica da obra deixada por Tim.
Thiago Corrêa
lido em Ago./Set. de 2008
escrito em 08.09.2008
: : TRECHO : :
“Chegou em casa e mandou um para dentro. O cara tinha dito que levava uns vinte minutos para bater, mas como depois de meia hora não acontecia nada, Tim tomou mais dois. E foi para a cozinha cortar um bife para fritar à milanesa, uma de suas especialidades. Pouco depois o apartamento foi sacudido por um urro animalesco. Apavorado, Tim saiu correndo da cozinha e gritando que o bife estava sorrindo para ele”. (pp. 105-106).
: : FICHA TÉCNICA : :
Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia
Nelson Motta
Objetiva
1a. edição, 2007
392 páginas
O Tim é uma figuraÇA, seja por onde tiver, por esse universo… Sou hiper fã dele.