Faca - Ronaldo Correia de Brito

mai 11th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

O silêncio cortante do Sertão

A analogia ao boxe feita pelo argentino Julio Cortázar para explicar as diferenças entre o romance e o conto não se aplica a Faca, escrito pelo cearense radicado no Recife, Ronaldo Correia de Brito. Apesar de ser um livro de contos, ele nos vence por pontos, numa conquista que se dá aos poucos, com golpes pequenos e incessantes, fazendo os leitores caírem de joelhos, rendendo-se à força precisa de suas palavras.

Nas onze histórias de Faca, Brito reconstrói de forma vigorosa o imaginário do Sertão. Os contos se completam, exploram o mesmo universo temático, embora sigam por caminhos diferentes. O autor nos apresenta uma região dura, seca e rudimentar que exige dos seus habitantes uma espécie de crosta de proteção. Essa casca calejada, desenvolvida na luta pela sobrevivência, vem sugerida na vontade dos sertanejos em cultivar a solidão e em perpetuar as tradições morais, que não raro se transformam em violência.

A honra é temática constante do livro. Nos contos ela assume formas variadas, aparece como amor, lealdade, respeito, família e vingança. Temas que são trabalhados como blocos de madeira maciça esculpidos à mão, lentamente, até encontrarem o formato exato imaginado por seu criador. São histórias maduras, livres de farpas na linguagem, mas longe de serem confortáveis para quem as lê.

Os contos de Faca estão mais para esculturas de demônios humanos do que cadeiras de balanço do vovô. Suas histórias são como um quarto escuro e apertado, um criadouro de angústia, uma coleção de tragédias que nos joga para um abismo onde não há salvação. O que mais impressiona no livro é que a desgraça não é feita a base do choque, da brutalidade.

Algumas cenas até impressionam pela violência, há tiros, facadas, brigas; mas os ataques de Brito mais ferozes são sutis, feito uma doença. Ela sufoca os leitores com uma avalanche textual contínua, onde não se enxergam perspectivas de mudança para as personagens além da tragédia. Uma estratégia que o autor explica em A Escolha: “As histórias não têm apenas princípio e fim, elas são sobretudo o meio, que é o tempo de maior duração, o de se comer juntos uma arrouba de sal” (p. 91).

Ao contrário de outros olhares que mitificam o Sertão através do humor e de uma beleza quase folclórica, Brito opta em trabalhar com o imaginário sertanejo de uma maneira mais real, borrando as fronteiras entre o mundo como conhecemos e o que imaginamos. Algo que o autor consegue com naturalidade.

Nos contos A espera da volante e Lua Cambará, por exemplo, Brito evita impor elementos mágicos diretamente aos leitores. Faz isso com as possibilidades da perspectiva, joga para as personagens essa responsabilidade de temperar os contos. É pelas vozes e olhares deles que as tramas ganham contorno fantasioso, criado por suas crendices e superstições. O que o autor faz, na verdade, é nos reunir numa roda de conversa e contar histórias para expor as sombras da alma humana.

Apesar de explorar a oralidade dos antigos sertanejos e se voltar para um lugar esquecido do tempo, as histórias revelam-se contemporâneas, fugindo do rótulo “regional” pela maneira como Brito as constrói. Ele usa uma linguagem cinematográfica, com cortes não-lineares feitos através da memória das personagens ou mesmo por recursos mais explícitos, dividindo a narrativa em blocos.

Thiago Corrêa
lido em Out. de 2008
escrito em 03.12.2008

: : TRECHO : :
“A volante policial vinha vindo, deixando um rastro de gemidos e desfeitas. Os soldados buscavam apenas três homens, mas, no caminho, alimentavam sua fúria de perseguidores maltratando qualquer um que houvesse dado guarida, por inocência ou interesse, aos perseguidos. Os sertões se abalavam nas passadas descalças dos assassinos, medrosos de deixarem sinais, e nas botas reiúnas dos homens da justiça” (pp. 11-12, conto: A espera da volante).

: : FICHA TÉCNICA : :
Faca
Ronaldo Correia de Brito
Ilustrações: Tita do Rêgo Silva
Cosac Naify
1a. edição, 2003
184 páginas

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  1. [...] da peça Baile do Menino Deus e dos livros de contos Faca e Livro dos Homens, Brito estréia no romance, desfrutando a vastidão espacial do gênero como se [...]

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