Livro das lamúrias - Luciana Lins
mai 18th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasUm lixo para se guardar na prateleira
Para uma geração que ganhou vinis dos Trapalhões, gravou fitas cassete do Guns’N’Roses, gastou mesadas em CDs do Radiohead e agora entope o ipod com música para uma semana inteira; chega a ser estranho perceber que os livros continuam sendo a mesma maçaroca encadernada de folhas de papel dos tempos de jardim de infância. Por ser cansativo ler numa tela de computador como essa que você está lendo aí, o suporte livro tem sobrevivido sem maiores problemas ao apocalipse da internet. Mas isso não significa que exista apenas um único formato para a produção de livros.
Desde as vanguardas do início do século passado, existe uma tendência entre as artes visuais de desvirtuar o objeto livro. A função deles deixa de ser a leitura, ao menos no sentido tradicional que estamos acostumados a relacioná-la com literatura. Os chamados livros de artista podem assumir qualquer forma imaginado pelos seus autores e devem ser apreciados com a mesma subjetividade de uma instalação ou performance, procurando desvendar a idéia de partida da obra e relacioná-la com o mundo ao seu redor.
Há casos também que as duas intenções aparecem numa obra só, um híbrido de valor visual e ao mesmo tempo literário. Um desses exemplos é o Livro das lamúrias, da pernambucana Luciana Lins, a compositora Lulina. A primeira vista, o volume não passa de uma lixeira cheia de bolas de papel amassadas identificada por uma plaquinha amarrada com um barbante que indica o nome da obra e de sua autora. Mas, depois de uma cutucada, você descobre as palavras escritas nas folhas amassadas e então o motivo do formato.
Tratam-se de lamúrias, esses lamentos que escrevemos num rompante de (in)consciência raivosa ou de profunda tristeza e não raro terminam na lata de lixo pela falta de elaboração típica dos impulsos. O formato, no entanto, serve como piada disso tudo, já que as bolas de papel revelam textos curtos de veia cômica e, principalmente, a preocupação da autora com a forma. Boa publicitária que é, Lulina sabe se comunicar através de poucas palavras e aliá-las com o formato que optou.
É observando essa característica que o Livro das lamúrias deixa de ser apenas um jogo divertido para assumir um peso artístico. A autora ultrapassa o recurso textual para construir suas idéias. Como as lamúrias são temáticas, Lulina também as trabalha a partir do suporte que as carrega, promovendo o diálogo entre as palavras e o meio. No caso, o papel amassado. Das 61 lamúrias, seis brincam com o tema – sublimadas, didáticas, do papel, carnavalescas, masoquistas e hipocondríacas.
Em outras, a autora revela sua preocupação visual com as palavras numa página em branco. Exemplo disso é a lamúria da solidão que aparece sozinha no meio de uma página A4, a megalomaníca que vem impressa numa folha A3 e a de amor que surge apenas na metade direita da página. Lulina ainda trabalha esse aspecto da obra através do visual das próprias palavras, como é o caso da lamúria médica que vem em forma garranchos ilegíveis, da corretiva trazendo um ajuste feito a mão, do vazio nos lamentos da falta de tempo ou da interrupção brusca presente na lamúria inacabada.
Thiago Corrêa
lido em Mar. e Mai. de 2009
escrito em 17.05.2009
: : TRECHO : :
“Lave as mãos depois de ler. Isso estava no lixo.” (Lamúrias hipocondríacas).
: : FICHA TÉCNICA : :
Livro das lamúrias
Luciana Lins
Edição do autor
1a. edição, 2008
61 lamúrias
“chega a ser estranho perceber que os livros continuam sendo a mesma maçaroca encadernada ”
O livro é portátil desde os anos 1600, enquanto a música só se tornou portátil em 1979.
Onde encontro esse livro? O tema despertou a minha curiosidade.
original e <> como tudo que vem de Lulins.
Adorei!
original e “fofo”, como tudo que vem de Lulins.
Adorei!
Onde eu acho?????? Quero mtooo!
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