Nasci para sonhar e cantar - Mila Burns

mai 4th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Dona Ivone Lara sob olhar acadêmico

Não faz muito tempo que o Brasil desceu do pedestal e passou a olhar para o próprio umbigo na intenção de desvendar sua identidade nacional a partir de uma visão menos elitista. Um processo de garimpagem que retoca a importância de estandartes da cultura brasileira como o samba e o frevo, dando o devido reconhecimento a artistas populares, alçados ao status de mitos. Nesse rastro; que já resultou em documentários sobre Paulinho da Viola, Cartola e Maestro Formiga; surge o livro Nasci para sonhar e cantar - Dona Ivone Lara: a mulher no samba, escrito pela jornalista Mila Burns.

Por se tratar da adaptação de uma dissertação de mestrado em Antropologia Social, o volume foge à definição de biografia. Até há informações sobre a vida de Yvonne da Silva Lara, remontando a trajetória da menina nascida em 1921, que, anos mais tarde, entraria para a História como a primeira mulher a assinar um samba enredo. O livro resgata dados da infância atropelada pela perda precoce dos pais, o esforço para conquistar a estabilidade financeira no trabalho de enfermeira e assistente social, além do relacionamento da sambista com Oscar Costa, que resultou em casamento e dois filhos.

Agora, o maior mérito de Nasci para sonhar e cantar é trazer à tona a peculiaridade da formação musical de Dona Ivone Lara. A sambista cresceu sob influência dos pais (membros de um rancho, espécie de bloco carnavalesco com instrumentos de corda e sopros), do tio Dionísio (cujas rodas de choro chegaram a reunir Jacob do Bandolim e Pixinguinha) e da tia Tereza, que apresentou à sobrinha o jongo, dança ligada a grupos de umbanda. Somado a essas forças, também atuam os conhecimentos adquiridos no coral do Colégio Municipal Orsina da Fonseca, onde a sambista aprendeu teoria musical com a esposa do maestro Heitor Villa-Lobos. Uma experiência de vida em meio a dois mundos que reflete nas composições de Dona Ivone Lara, possibilitando arranjos mais elaborados ao samba.

Mas tudo isso aparece en passant, relatado por alguém distante que observou os fatos de cima, sem um aprofundamento emocional na vida da sambista, ficando apenas na descrição de fatos. Embora o texto tenha passado por um processo de saneamento para eliminar cacoetes acadêmicos (restando apenas algumas citações de autores para avalizar a voz da autora), falta tato para desvendar o lado humano da sambista. A preocupação é mais científica, procura analisar as relações entre a cultura erudita e a popular, o papel da mulher na sociedade, os resquícios da escravidão e as estratégias de Dona Ivone Lara para se inserir no universo masculino do samba.

Ainda assim - mesmo nesse meio termo de nem ser uma biografia, nem um estudo acadêmico -, a história contada não deixa de ser enriquecedora. Pelo pouco que temos acesso à sambista, dá para perceber que a vida de Dona Ivone Lara é um desses casos em que o destino já estava traçado e, independente do que pudesse acontecer, o resultado não poderia ser muito diferente do que conhecemos. É como se a luz dessa brasileira de mão cheia tivesse desvirtuado todas as adversidades enfrentadas, transformando-as em requisitos necessários para a conquista de uma originalidade musical, ao invés de servir como obstáculo.

Thiago Corrêa
lido em Abr. de 2009
escrito em 22.04.2009

: : TRECHO : :
“Yvonne transitava entre diferentes mundos quase sempre, mediando as relações entre eles. Interpretava esses diferentes códigos e os traduzia, esclarecendo, levando essa vivência aos diferentes mundos dos quais participava. Ora aplicava os conhecimentos obtidos no colégio interno em casa, ora levava para o internato o comportamento herdado da família, abarcando em si todas essas noções, misturando os dois universos em um novo: o dela.” (p. 60).

: : FICHA TÉCNICA : :
Nasci para sonhar e cantar – Dona Ivone Lara: a mulher no samba
Mila Burns
Record
1a. edição, 2009
173 páginas

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