A cabeça do futebol - Vários

jun 8th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Toques de letra para embelezar o futebol

Há quem enxergue uma partida de futebol apenas como 22 homens correndo atrás de uma bola durante 90 minutos. O cineasta italiano Paolo Pasolini, no entanto, achou poesia na seleção brasileira da Copa do Mundo de 1970, enquanto os outros times lhe pareceram somente prosa. No livro A cabeça do futebol essa classificação se desmembra em gêneros textuais que vão da crônica ao poema, do conto ao ensaio.

Organizada pelos jornalistas Gustavo de Castro, Samarone Lima e Carlos Magno Araújo; a coletânea futebolística reúne em suas 166 páginas uma seleção de outros 25 craques da palavra como José Roberto Torero, Fabrício Carpinejar, Daniel Piza, José Castello, Xico Sá, Juca Kfouri e o espanhol Enrique Vila-Matas (de Bartleby e companhia).

O escrete pernambucano ficou representado por Raimundo Carrero, Fernando Monteiro e Inácio França. Mostrando entrosamento, os três seguiram pelo caminho da crônica para contar causos guardados na memória. Monteiro assume o papel de cérebro do time, o camisa 10 com seu estilo seco e direto para revelar o interesse do espanhol Camilo José Cela, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1989, pelo folclórico Íbis, clube pernambucano considerado o pior time do mundo.

Capaz até de comer grama por amor ao time, Carrero mostra raça e ganhou o posto de queridinho da torcida pela devoção demonstrada na crônica Um escritor no pasto. Enquanto o jornalista Inácio França recebe o status de líder pela capacidade de encontrar motivação para reverter situações difíceis dentro de campo (ou fora dele) em Gaia indolor.

Como donos da bola, o trio de organizadores também entra em campo para dar seus toques de letra. Cearense radicado no Recife, batizado em homenagem a um jogador do Fluminense da década de 60, Samarone resgata uma história vivida na Argentina em 1999, quando precisou levar um garoto francês de sete anos a um clássico em Buenos Aires. Assim como toda partida de futebol, o livro tem lá seus altos e baixos. Há espaço para as frases feitas de O imaginário do futebol (de Juremir Machado da Silva) e o sonolento ensaio antropológico As cores da vida (de Hilário Franco Júnior).

Mas esses chutões de bico passam desapercebidos perto do golaço afetivo de José Roberto Torero, os dribles desconcertantes de Xico Sá e o lançamento em profundidade de Daniel Piza. No ensaio Bola de meia, o jornalista paulista aproveita a famosa citação de Pasolini para destruir alguns mitos do meio futebolístico. Ao preencher essa lacuna, A cabeça do futebol tem tudo para manter a corrente de despertar o interesse de leitores para o futebol, como conta José Castello em Uma paixão de letra, onde ele revela ter se interessado pelo esporte a partir de uma crônica de Nelson Rodrigues.

Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2009
escrito em 04.06.2009

: : TRECHO : :
“O jogador abriu os braços e virou-se, de joelhos, para os quatro lados do estádio. Olhei para trás e vi que todo mundo estava chorando. Pior, olhei para o lado e vi que meu pai estava chorando. Meu pai chorando!? Aquilo era uma coisa que eu nunca tinha visto na vida. Nem visto, nem imaginado. Perguntei-lhe o que estava acontecendo. Ele me explicou que aquele homem de joelhos ia parar de jogar futebol.” (p. 18, crônica: O dia em que virei santista, de José Roberto Torero).

: : FICHA TÉCNICA : :
A cabeça do futebol
Vários
Casa das Musas
1a. edição, 2009
166 páginas

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