Linguaraz - Pedro Américo de Farias

jun 1st, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

A voz poética do paralelepípedro

Justo quando os acadêmicos finalmente parecem ter conseguido organizar a arte em caixas, eis que os artistas começam a bagunçar tudo de novo. É músico atacando de escritor, poeta voltando a flertar com teatro, letras de música encaradas como poemas e poesias declamadas como canções. Explorada pelo delicado documentário Palavra (En)cantada, de Helena Solberg; a relação entre música e literatura ganha um novo exemplo com o lançamento de Linguaraz, do pernambucano Pedro Américo de Farias.

Mais do que um audiolivro, a publicação vem acompanhada de um CD que traz os 22 poemas em versões musicadas. Para isso, o poeta contou com a direção artística dos músicos Lucas dos Prazeres e Yuri Queiroga, que também participam de boa parte das faixas. Além deles, também figuram no disco DJ Dolores, responsável pela programação eletrônica de As vogais de Affonso Ávila, a voz de Silvério Pessoa em Lei Seca e a de Maciel Melo em O bailado dos olhos.

Linguaraz é um produto meticulosamente agradável de se ter em mãos. Com projeto gráfico de Gilmar Rodrigues e as valorosas ilustrações de Victor Zalma, os poemas de Pedro Américo ganham uma moldura que, ao invés de tentar traduzi-los, busca o diálogo com as palavras. Os desenhos de Zalma se encaixam nos espaços abertos pelas ideias do texto, pega fiapos, arestas de versos, para tecê-los em traços, concretizando imagens esculpidas em palavras pelo autor.

Esse diálogo se intensifica em As vogais de Affonso Ávila, quando as duas formas de expressão se fundem e já não é mais possível a distinção entre ilustração e palavra. A aparente ingenuidade do texto é justamente o que permite a sua versatilidade como experimento artístico. No papel, ele ganha forma de poesia visual, que, por sua vez, interage diretamente com os ecos e suspiros do jogo auditivo proposto por DJ Dolores na versão musical.

A descoberta acontece em ritmo lento e segue por todo o livro. Nos seus escritos, Pedro Américo não demonstra ansiedade. Ao explorar uma linguagem libertária, o escritor foge à estrutura linear nos desafiando em pequenas parcelas de palavras que soltam doses homeopáticas de sentido. No escuro das incertezas, esses fragmentos, aos poucos, entre uma faísca e outra, aqui e acolá, nos permite romper a névoa que esconde a linha narrativa e suas imagens. A poesia aparece nos jogos de palavras de Soma : Sumo, O bailado dos olhos, Mistérios e Um marinheiro e o Recife onde as sensações primeiro nos cerca antes de dar o bote.

Mas o livro cresce mesmo nos episódios narrativos, quando a fluidez das palavras Paralelepípedro, Fuga, Mãe de pantanha e Guerra e paz nos atinge num crescente. Não é o caso, porém, de Picardia, Decifra-me e eu te devoro e Lei seca, que só se justificam quando ouvimos suas versões musicais. Um caminho que se revela exceção, pois bons poemas como os já citados Paralelepípedro, Mãe de pantanha, Soma : Sumo, Mistérios, O bailado dos olhos também funcionam musicados.

Thiago Corrêa
lido em Mai. de 2009
escrito em 31.05.2009

: : TRECHO : :
“pras bandas de Nazaré / visitei antigo engenho / teve já seu desempenho / em tempos de coroné / entrando em nova maré / o povo desenganado / o maior abandonado / desprezado gera filho / que nem espilga de milho  / do sabugo debulhado” (p. 20, poema: Mãe de pantanha).

: : FICHA TÉCNICA : :
Linguaraz
Pedro Américo de Farias
Edição do autor
1a. edição, 2009
46 páginas

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2 comentários
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  1. Li (ouvi) e gostei. Concordo que alguns poemas só funcionam enquanto musicados. Outros mantêm a força no papel.

  2. Thiago,

    Concordo com a sua leitura, inclusive quando considera a indispensável vinculação à música (para que se justifiquem) dos poemas Picardia, Decifra-me e eu te devoro, Lei seca. Na verdade, são poemas que escrevi cantando, melhor dizendo, apropriando toadas tradicionais (para construções semelhantes) em versos metrificados e rimados.
    Oportunamente, gostaria de acrescentar outros comentários.

    Abração

    Pedro Américo

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