O gato diz adeus - Michel Laub
jun 29th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasDocumentário sobre drama familiar
Por mais particulares que sejam, as relações conjugais volta e meia saem do ambiente privado para cair no domínio público. Momentos de intimidade que caem na internet como vídeos do YouTube, reproduzem-se nos blogs de fofoca e alimentam o voyeurismo trancafiando pessoas comuns nos reality shows. Longe de tanto alarde, mas de uma linha temática semelhante está o quarto livro de Michel Laub - O gato diz adeus. Nele, o escritor gaúcho expõe as mazelas de uma relação amorosa que o tempo vai transformando em rotina, desinteresse sexual, ciúme, brigas, traições e gravidez indesejada.
Um tema que já faz parte da obra do autor. Em seu último livro, O segundo tempo, Laub também investe no drama familiar gerado por crises conjugais e suas consequências sobre os filhos desses relacionamentos. Apesar da semelhança temática, os livros se distinguem pelo formato. O segundo tempo é contado de forma tradicional, a partir da narração de um garoto de quinze anos que assiste sua família se desmoronar, enquanto O gato diz adeus potencializa a turbulenta história do triângulo amoroso entre a atriz Márcia e os professores universitários Sérgio e Roberto através de uma estrutura de documentário.
Mais do que a proposta de organização de relatos presente no livro Mate-me por favor, O gato diz adeus intensifica a relação com a linguagem cinematográfica, usando recursos típicos de um roteiro de filme. Algo que aparece em meio aos depoimentos das personagens, como citações de matérias de jornais e mesmo a mudança na referência a Andreia. Inicialmente ela surge com a indicação de ser uma leitora de Sérgio para depois aparecer apenas como Andreia, quando lhe é revelado o segredo de sua paternidade.
Essa e outras lacunas vão sendo preenchidas aos poucos, na medida em que as personagens narram suas próprias versões, como se estivessem sendo entrevistados pelo leitor. Não há narrador, cada um dá seu ponto de vista pessoal, ampliando as perspectivas sobre os mesmos fatos, num processo contínuo de questionamento da verdade. Um jogo que se torna ainda mais complexo com a opção do autor em construir a trama sem ordem cronológica definida, embaralhando os relatos, como se viessem da memória num bombardeio de fragmentos e interpretações motivadas pelo ressentimento.
A trama só começa a se desenrolar de fato na segunda parte do livro, quando o tempo parece amenizar as dores das personagens. Os depoimentos ficam mais racionais, possibilitando a amarração do que ficou em suspenso no primeiro momento. Mas o ranço meloso de uma discussão familiar ainda continua, embora o autor o dilua com frases bem construídas e o recurso da metalinguagem, que se revela mais pretensioso do que consistente. No fim, fica a impressão de novela mexicana com pretensões de documentário cult.
Thiago Corrêa
lido em Mai. de 2009
escrito em 21.06.2009
: : TRECHO : :
“O gato é um dos bichos mais vulneráveis da natureza. Uma simples mudança de ambiente faz as defesas do organismo despencarem. Uma dose de vacina contra raiva pode ter como efeito um tumor. Um gato pode ser morto por uma aspirina, fechar a glote se comer certas plantas, ter convulsões se ficar trancado por uma hora num banheiro limpo com Pinho Sol. Quando você põe um gato no colo, sente o coração dele batendo rápido, como se pressentisse todas essas formas de perigo” (p. 09).
: : FICHA TÉCNICA : :
O gato diz adeus
Michel Laub
Companhia das Letras
1a. edição, 2009
79 páginas