Frenesi Polissilábico - Nick Hornby

jul 27th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Cronicamente recomendável

Escrever sobre um livro que fala sobre a experiência da leitura possibilita algumas experimentações. Então abro algumas exceções nesta resenha para falar de minha relação com Frenesi polissilábico, livro que reúne artigos escritos pelo autor inglês Nick Hornby para a coluna Stuff I’ve been reading, da revista The Believer, entre setembro de 2003 e junho de 2006. Apesar de já conhecer o autor e considerar Alta fidelidade um grande romance de minha geração, confesso que só encarei o novo trabalho do inglês depois de um empurrãozinho de Ronaldo Correia de Brito, que indicou o livro quando soube que eu passaria a cobrir literatura no Diario de Pernambuco.

Como o momento ajudava, a leitura se mostrou oportuna. Nas 28 colunas reunidas no livro, Hornby abre novas perspectivas em relação à maneira de se analisar a produção literária nos veículos de imprensa. Com a exigência da revista de não poder falar mal dos livros, o inglês parte para um formato menos convencional, de falar sobre os títulos que leu no mês como se estivesse conversando com seus amigos. São resenhas em forma de crônica, que compõem o diário de bordo de leitura de Hornby, onde ele foca mais em sua experiência de leitor do que nos próprios livros.

Assim, ele nos conta como chegou até determinado livro, comenta as expressões que as pessoas fazem enquato lêem no hotel, relata as peculiaridades dos atendimentos das livrarias, reclama da falta de tempo para ler… E antes que alguém questione a importância dessas informações, é bom lembrar que todo esse papo não é mero blábláblá para encher linguiça. Basta recordar de alguns dos nossos melhores cronistas, que, no desespero de preencher um espaço numa revista ou jornal, conseguiram contornar o branco de ideias em deliciosos textos sobre o nada. A enrolação de Hornby aparece como um ótimo atrativo travestido de resenha.

Apesar do tom cômico e do descompromisso de análise, os textos trazem informações relevantes sobre o mercado editorial. Hornby discorre pelas tendências temáticas das editoras, expõe as estratégias de divulgação, descortina os bastidores éticos do trabalho de resenhista e ironiza a decisão da revista em só falar bem. Algo que é quase sempre cumprido pelo autor, que tenta buscar os pontos positivos das narrativas abordadas. Só quando o caso de mediocridade é sério, ele dá suas impressões, mas com o cuidado de não citar o livro nem o autor.

Embora até admire essa linha editorail de assumir o papel de incentivar a leitura, preciso reconhecer que não seria justo de minha parte só levantar a bola de Frenesi polissilábico. O livro tem lá seus pontos positivos, levanta questões interessantes sobre o meio jornalístico e o mercado editorial, traz a linguagem fluida e bem humorada de Hornby, mas às vezes ele cansa. Cai no mesmo erro de usar referências particulares que enfraquece Febre de bola e dá leves arranhões em Alta fidelidade.

Por ser uma coluna direcionada a títulos publicados na Inglaterra, pouco se sabe aqui no Brasil do que Hornby está falando. É como ouvir a conversa de dois estranhos no ônibus… o vocabulário, a entonação, as metáforas podem até ser boas, mas de que interessa saber o detalhe de um jogo do Arsenal nos anos 70 ou de um livro que dificilmente será publicado por aqui? Algo essencial se perde nesse processo de tradução, algo que a língua não consegue atingir. O problema é de ordem geográfica, está nos mais de nove mil quilômetros de oceano que separam o Brasil da Inglaterra.

Thiago Corrêa
lido em Mai. de 2009
escrito em 19.07.2009

: : TRECHO : :
“Ser um leitor é mais ou menos como ser presidente, só que geralmente a leitura envolve menos salamaleques. Você tem uma agenda que deseja cumprir, mas acaba se distraindo por eventos da vida, como, por exemplo, livros chegando pelo correio/Terceira Guerra Mundial, e você temporariamente se desvia de sua programação” (p. 68).

: : FICHA TÉCNICA : :
Frenesi polissilábico: o diário de Nick Hornby – um leitor que perde as estribeiras, mas nunca perde a esperança
Nick Hornby
Trad. Antônio E. de Moura Filho
Rocco
1a. edição, 2009
263 páginas

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