Histórias reais - Sophie Calle

jul 13th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Quando a vida se transforma em arte

O limiar que separa o mundo público do privado tem sido um viés produtivo na arte de meados do século XX para cá. Mais do que um simples processo de alimentar a ânsia voyeurística do público, alguns artistas conseguem usar essa dualidade para dar contornos de autenticidade à sua obra e até promover uma espécie de revisão, seja ela de caráter pessoal ou histórica. O tom confessional da francesa Sophie Calle, no entanto, possui o delicado aspecto de transformar a própria vida em arte.

Uma característica que a elevou a ser um dos principais nomes da arte conceitual da França e se estende para seus trabalhos como fotórgrafa e escritora. Prova disso é Histórias reais, primeiro livro de Sophie Calle publicado no Brasil. Nele, a autora explora essas duas linguagens para iluminar fatos e experiências de sua vida incomum.

O livro trabalha com sutileza o diálogo entre texto e imagem para contar lembranças da francesa, embora nem todas fotografias sejam da autora. Os relatos surgem a partir de objetos que se prenderam à memória de Sophie Calle, lhe trazendo recordações como se ela estivesse revendo seu acervo de documentos sentimentais, recheado de álbuns de fotografias e cartas antigas.

De um sapato vermelho, ela desfia histórias sobre as aventuras da sua fase cleptomaníaca. Enquanto uma sobremesa a faz evocar um constragimento sofrido na adolescência e um simples dado de jogo resgata dois amores que passaram por sua vida.

Recordações que também ajudam a compreender o legado dessa ex-stripper que hoje expõe sua intimidade para fazer arte. Ela deixa suas impressões sobre algumas de suas obras mais importantes, como Nuit blanche (2002), performance que consistia em passar uma noite sem dormir na Torre Eiffel, ou o filme No sex last night (1996), feito em parceria com seu ex-marido Greg Shephard. Em dez breves textos ela remonta seu romance com o cineasta, do primeiro encontro ao casamento, da traição à nova relação afetiva.

Apesar do formato próximo do diário, evidenciado pela organização cronológica e o interesse da autora em registar o momento sempre se referindo à sua idade na época; Histórias reais está além dessa classificação. O grande diferencial do livro é que, em seus breves relatos, Sophie Calle foge à simples tarefa de construir suas lembranças através de fatos, mas a luz do tom apaixonado de quem tem consciência de que fazer arte é, antes de tudo, viver.

Thiago Corrêa
lido em Jun. de 2009
escrito em 03.07.2009

: : TRECHO : :
“No último dia, ao ver minhas lágrimas enquanto comíamos, H. contou-me um segredo. Era um segredo terrível, uma história que havia atormentado a sua vida, e agora ela a estava confiando a mim. Só a mim. No mesmo instante em que me privava de seu amor, aquele homem me presenteava com a última prova de nossa intimidade.” (p. 45, texto: O presente).

: : FICHA TÉCNICA : :
Histórias reais
Sophie Calle
Trad. Hortencia Santos Lencastre
Agir
1a. edição, 2009
88 páginas

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