Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres - Clarice Lispector
jul 20th, 2009 | Por Julieta Jacob | Seção: CríticasO prazer de aprender a amar
São tantos os livros que quero ler, que uma vida parece pouco. Portanto, ler duas vezes o mesmo livro, pra mim, é quase um acontecimento, coisa rara mesmo. E assim foi com Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector. Fui apresentada a Clarice numa aula de literatura no ginásio. Lembro-me bem das palavras usadas pela professora para descrever a complexidade da escritora: “ela tem uma narrativa circular, sem começo nem fim”; “Clarice é intensa e subjetiva, entendê-la não é fácil”.
Naquele tempo, meu mundo ainda era relativamente organizado, por isso confesso que tive receio de iniciar uma amizade com a tal escritora que costumava “ir fundo na alma da gente”. O máximo que fiz foi ler o seu livro de crônicas Laços de Família que, por sinal, adorei. Os anos passaram. Eu me apaixonei, eu amei, eu sofri e chorei, como chorei. Minha amiga Joana (Rodrigues), que já havia me cedido colo, ombro e ouvidos, não sabia mais o que fazer pra me ajudar, quando teve uma brilhante ideia: abriu seu armário de livros, puxou um de capa branca e poucas páginas, abriu-o e começou a ler um trecho grifado.
Eu comecei a chorar de leve, só que, desta vez, não mais de tristeza. Aquelas palavras haviam sido escritas para mim e por alguém que entendia muito de amor. “Posso ler, você me empresta?”, pedi quase implorando. E ela, sorridente: “Claro, foi pra isso que eu peguei o livro”. Deixei a casa dela duplamente feliz, pois havia encontrado consolo pro meu sofrimento e, de quebra, ainda ia ter a chance de, finalmente, conhecer Clarice de perto.
Posso dizer que minha professora do ginásio não tinha exagerado. Clarice Lispector é mesmo cheia de complexidade. O próprio título do livro reflete esse traço: cabe ao leitor escolher Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres ou mesmo tudo junto. Em vez de ditar regras, Clarice oferece opções e brinca com a nossa imaginação. Ainda por cima, consegue ser complexa sem ser complicada. Eu a definiria como uma “bagunça com ordem”, ou ainda uma “desordem que faz sentido”.
É como se ela conseguisse traduzir num discurso compreensível toda a confusão e perplexidade que existe dentro da gente. E, muito mais do que complexa, eu diria que Clarice é sensível. Tanto que conseguiu transformar uma simples história de amor num grande livro e, pra isso, não precisou recorrer a personagens fantásticos, paisagens incríveis ou a uma narrativa mirabolante. Uma aprendizagem… não passa de uma história comum com personagens de carne e osso como eu e você.
Trata-se de Ulisses e Lóri, que se gostam, querem ficar juntos, mas ainda não estão prontos um para o outro. Ou melhor, Ulisses, mais velho e experiente, sente-se mais à vontade diante do amor, enquanto Lóri é uma aprendiz dos assuntos do coração. E quem disse que é preciso aprender a amar? Embora muita gente nem se dê conta disso, Ulisses e Lóri vão provar que sim, e que essa aprendizagem faz parte de um processo essencial (e prazeroso) de amadurecimento. E tudo isso é passado ao leitor de uma forma incomum, num livro com poucos diálogos e quase nenhuma ação, que foge inteiramente à didática de cartilhas monótonas e previsíveis.
O desenrolar dos “acontecimentos” se passa mais na cabeça dos personagens do que “na vida real”. Engraçado que, quando terminei de ler o livro pela segunda vez, ainda assim eu não sabia contar a história com muitos detalhes (onde e quando se passam os fatos), tampouco descrever os personagens (quem são, onde vivem, o que fazem). Em compensação, eu era perfeitamente capaz de dizer o que Ulisses e Lóri pensam e desejam, assim como suas angústias e medos mais íntimos. Isso porque, mais do que informações e descrições, o livro nos traz sensações.
Se retirarmos a riqueza psicológica de Ulisses e Lóri, a narrativa perde todo o encanto. Viraria a simples história da paquera entre um professor de Filosofia e uma moça tímida, que termina num final apaticamente feliz (não vou contar pra não estragar a surpresa). Na verdade, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres é uma lição de paciência, compreensão, afirmação do que somos e de respeito ao outro, tudo isso tendo como pano de fundo um relacionamento amoroso. Deveria ser leitura obrigatória para todos que pretendem amar e ser amados por alguém. Eu estou fazendo a minha parte e já dei o livro de presente a quatro pessoas. Espero, com este texto, que traz mais impressões do que informações, despertar o interesse de mais leitores.
Julieta Jacob
lido em julho de 2006
relido em outubro de 2008
escrito em julho de 2009
: : TRECHO : :
“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra pra frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.” (p. 26)
: : FICHA TÉCNICA : :
Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
Clarice Lispector
Rocco
158 páginas
Chega deu vontade de ler, Juba.
Gostei muito do seu texto, espero que dessa caixinha tenha mais.
Julieta, vc conseguiu me deixar com “sede” de Clarice. Já li uns dois livros dela e nunca tinha conseguido explicar o que de fato sentia quando acabava de ler, realmente, Clarice escreve sentimentos, nada mais.
Já baixei o pdf e começarei a devorar as páginas loguinho.
Parabéns pelo blog, fantástico.
Oba, o texto já está fazendo efeito! Valeu, Tapi e Ana!
comprarei o mais rápido possível para mim e para quem me faz apaixonada hj.
Espero que goste, Antonia! Boa leitura.
parabens,você nos deixa com sede de leitura
continue assim
parabens,vc escreve mt bem
vou procurar o livro agora msm
Gente, obrigada, mas o mérito é todo de Clarice!
com todas essas palavras,
fica dificil resistir á esse livro irresistivel !!!
Nussa Fikei Louca para ler esse livro…
Ah Clarice sabe mesmo escrever um livro…
Pois esse ñ é um livro e sim
O LIVRO ‘
Beeijo =]
Julieta, Julieta… Se eu te contar como cheguei a esse livro, vc dira que estou plagiando seu texto, minha querida!
Assim como você, em um momento onde um suspiro maior é dificil de ser dado, onde “o coraçao tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas “, um amigo (sim homem!) tirou esse livro do armário e disse: leia-o! Infelizmente, ou felizmente, nunca devolverei esse livro pra ele novamente ! É apaixonante e nunca quis parar de lê-lo… a cada capítulo avançado, eu voltava dois! Realmente não há descrição para Clarice!
Sugiro a todos tb: leiam! leiam e leiam! Não esperem um livro de auto-ajuda (não MESMO), mas de auto-conhecimento!
Vou deixar meu “Copo de cólera” de lado e reler pela X vezes, mas desta vez “O livro dos prazeres”!! hehehe!
Adorei, estou fazendo um trabalho sobre Clarice e ainda não li esse livro, estou correndo p comprá-lo pois fiquei com muita vontade de ler. Obrigada!
Oi, Silmara,
Depois conta pra gente o que achou do livro! Boa leitura.
realmente essa obra e unia aos olhos de clarice, como todas as outras,
lori e o ulisses sao apenas um pequeno fato que ocorre entre nos seres humanos, que sao aqueles q procuram entender o mundo no mas intimo de cada homem e mulher. clarice sempre sera clarice.
Olá
Bom dia
Ando louca atraz de um livro da CLARICE LISPECTOR, que MARIA METHANIA, lê alguns trechos em seu DVD tempo tempo, não consigo ler o nome do livro, só mostra a capa, sendo a parte superior branca, escrito CLARICE LISPECTOR em azul e a parte de baixo em preto…………..
Se alguém souber que livro é esse por favor, me mandem um e-mail com nome correto do livro…
Já procurei de todo jeito na internet e nada consegui…
bjs
Olá, tb já li duas vezes…
adoro esse livro, é o meu preferido dela!